O poder das relações sociais

Vivemos em um mundo social. Relacionamentos sempre estiveram conosco desde os tempos primordiais e sempre foram inerentes à condição humana e essenciais para a nossa sobrevivência. As sociedades modernas atuais, com o desenvolvimento tecnológico, internet e mídias sociais, oferecem diversas oportunidades para o desenvolvimento intelectual e cultural dos indivíduos destas sociedades, assim como oferecem oportunidades sem precedentes para o ser humano, oportunidades de conexões sociais e ideológicas que estão rompendo barreiras de tempo e espaço. Relacionamentos que tem um enorme potencial enriquecedor para indivíduos que procuram compartilhar informações, criar comunidades, desenvolver idéias, a fim de gerar progresso tanto cientifico, quanto tecnológico, comercial e intelectual. Enfim, inúmeras possibilidades que tendem a aumentar conforme progredimos como sociedade.

No entanto, ao convivermos em este mundo tecnológico, tendemos a nos perder em meio a tantas possibilidades e nos esquecemos do que é essencial para o ser humano, o que, a princípio, foi responsável por este progresso e acima de tudo, o motivo pelo qual este progresso existe. A conexão social, com seres humanos, animais e a natureza. Conexão a qual não podemos viver sem e a qual constitui a essência, o motivo e o propósito de nossa existência.

Ao longo do desenvolvimento cultural, o ser humano tem constantemente caído em armadilhas como as que muitas sociedades atuais estão caindo. Apesar do desenvolvimento da língua e meios de comunicação do ser humano, ele de tempos em tempos cai na armadilha de se prender a estes meios, ou seja acreditar que os meios em  si são o propósito do desenvolvimento, que estes meios que irão gerar felicidade e progresso cultural e esquecer o nossos ancestrais sabiam a muito tempo, que o propósito destes meios é facilitar a conexão entre os seres humanos e a própria natureza. A cultura tem o propósito de aumentar o potencial de sobrevivência do ser humano por meio de coerção social, o que deu a luz a moral e a ética e que em si deve assegurar a estabilidade social para que o ser humano tenha condições de viver com maior dignidade e liberdade, para que assim possa desenvolver sua capacidade espiritual que possibilita maior felicidade individual e comunitária.

Ao nos fixarmos nos meios de comunicação em si e nos esquecermos do propósito dela, nos tornamos escravos de nossa própria criação, nos tornamos menos capazes de nos comunicarmos diretamente por meio dos nossos 5 sentido, o que é essencial para nós. O desenvolvimento dos nossos sentidos foi um processo longo, que foi o resultado da interação do ser humano com o meio ambiente ao longo de milhares de anos e que sofreu diversas pressões ambientais seletivas que, em contrapartida, obrigaram nosso sistema biológico a se adaptar a estas condições impostas pelo ambiente. Neste pressuposto, nosso organismo está adaptado a conviver em harmonia com o ambiente em que nossos genes foram moldados ao longo de milhares de anos e que portanto nos torna dependente de certos hábitos comuns a nossa espécie, que são essenciais para a nossa saúde. Estes hábitos envolvem o uso de nosso organismo de acordo com que somos capazes e nos é benéfico. Hábitos que asseguram a homeostase do organismo.

Quando nos fixamos nos nossos meios de comunicação nos tornamos mais propensos a perder a capacidade de desenvolver relações que são capazes de nos proporcionar um contato mais sutil e primordial. Um contato que é inerente ao ser humano e que serve como fonte de energia e inspiração para o ser humano que vai além do meio de comunicação em si e nos leva a presenciarmos um estado de felicidade profundo. Este estado é alcançado em meio a natureza, a qual nos originamos, portanto somos dependentes e nos é concedido ao usarmos nossos sentidos de forma a que alcancemos um melhor contato com este ambiente, que envolve todos os objetos e seres que fazem parte de nosso dia a dia. Este é o contato em que somos dependentes como seres humanos, é inerente a felicidade humana e o equilíbrio do organismo e nos acompanha há milhares de anos ao longo de nosso desenvolvimento como espécie.

 

Rituais

Nossos ancestrais conviviam de acordo com estes valores e princípios, o que podemos observar por meio de pesquisas sobre a cultura dos nossos ancestrais, que ao longo das últimas décadas tem nos oferecido indicações sobre a vida cultural de nossos ancestrais durante o último período paleolítico.  Muitas destas pesquisas apontam para o fato de que nossos ancestrais tinham uma vida social intensa cheia de rituais e práticas que aconteciam com o objetivo de reforçar o sentimento gregário entre os membros das sociedades, ou seja, aconteciam como forma de reforçar o vinculo entre os membros da sociedade o que deu origem a rituais religiosos.

Os rituais mais antigos, de acordo com evidências arqueológicas, eram centrados durante o compartilhamento dos animais caçados e ao longo do tempo foi se tornando uma atividade mais sofisticada. Estas pesquisas provam que por volta de 200 a 400 mil anos atrás (período paleolítico recente) caças de grandes animais mamíferos passaram a ser distribuídas de forma cada vez mais organizada, de acordo com regras pré estabelecidas, o que reflete o desenvolvimento cognitivo e cultural dos povos ancestrais.

Com o passar do tempo os rituais se tornaram cada vez mais sofisticado e deixaram de centrar-se apenas nos alimentos e passaram a ser elaborados e em torno do vínculo social nas horas de lazer. Na idade do gelo, houve um grande crescimento populacional. Neste período, resquícios arqueológicos comprovam um grande desenvolvimento cultural como reflexo deste crescimento, desenvolvimento dos rituais, que contribuíam para o desenvolvimento de uma identidade cultural comum os membros das sociedades, o que fortalece o vínculo entre os membros e o espírito de cooperatividade, como por exemplo rituais de enterros e velórios. Em uma pesquisa recente foi encontrado o que pesquisadores acreditam ter sido um grande banquete, feito para homenagear a morte de um xamã importante para a tribo.

Então aqui temos evidências arqueológicas de que rituais fazem parte da história do ser humano há pelo menos centenas de milhares de anos. Desta forma, é concebível que os pesquisadores acreditem que os vínculos são de extrema importância biológica para o ser humano e permitiu que ele se desenvolvesse para melhor se adaptar aos fatores externos do meio ambiente para que assim se procriasse como espécie ao longo das gerações.

Qual é a vantagem do contato social direto com relação ao contato virtual? Pesquisas recentes tem demonstrado evidências cada vez mais convincentes de que o contato social direto é extremamente importante para o ser humano, o que gera benefícios para a saúde física e mental. O contato virtual é uma ótima ferramenta para reforçar os relacionamentos, por meio do compartilhamento de idéias, troca de experiências e como um meio de criar e desenvolver comunidades que podem refletir fortalecer opiniões e idéias, que estão intrinsecamente ligadas ao caráter dos indivíduos, refletindo os valores e a moral destes grupos. No entanto, as pesquisas mostram que o contato social direto é essencial para o ser humano, pois este contato envolve o uso de vias neurais que somente são ativadas por meio dos 5 sentidos.

Elas demonstram com clareza que o sentimento de conexão social é essencial para a sobrevivência do ser humano e sem ele, o homem entra em depressão e adoece. As relações sociais são responsáveis pelo controle de uma área primária do cérebro chamada amígdala, responsável pela reação ao perigo e  o controle de stress.  A amígdala é o centro identificador de perigo, e é responsável por gerar medo e ansiedade, colocando animais, em situação de alerta, aprontando-se para fugir ou lutar. Pesquisas tem demonstrado uma grande correlação entre os níveis de stress de indivíduos e o número de células cerebrais (massa cinzenta) nesta área cerebral.  O estímulo elétrico dessas estruturas provoca crises de violenta agressividade. Esta área é uma das estruturas límbicas cerebrais que é uma unidade do cérebro mamífero responsável pelas emoções. Pesquisas tem demonstrado que quando indivíduos estão socialmente privados, esta área fica superexcitada, produzindo células que irão reforçar a produção de hormônios de stress como o cortisol, para preparar o indivíduo para responder de forma efetiva a situações perigosas. Com o tempo estes indivíduos entram em estado de grande ansiedade, o que pode resultar em distúrbios neurológicos, se prolongados por muito tempo.

O ser humano, como outros animais, passou boa parte do período de sua evolução lidando freqüentemente com situações perigosas e estressantes, o que fez com que o corpo se adaptasse a essa demanda de perigo do ambiente, de forma a desenvolver mecanismos biológicos de defesa à estes perigos que lidavam de tempos em tempos. O sistema límbico é uma área cerebral primária, inerente a todos os mamíferos e de grande importância evolutiva, o que é essencial para a sobrevivência do ser humano.

Nosso organismo é pelo menos 99,9% igual a dos nossos antepassados do último período paleolítico, sendo assim nossa estrutura biológica e cerebral é praticamente igual a nossos antepassados. Nossos cérebro límbico é mais antigo que o cérebro executivo pré-frontal, o que explica a importância evolutiva desta área cerebral e mostra a importância dela. Dessa forma somos dependentes de nossa evolução biológica, somos o que somos não só pelo que fazemos em nossas vidas, pelo que fomos no passado. Nosso cérebro é estruturado desta maneira, só podemos agir de acordo com que ele é programado a agir, portanto se somos dependentes das relações sociais não há nada que possamos fazer para vivermos melhor do que seguir nosso destino humano de ser sociável e desenvolvermos maneiras de reforçar nosso sentimento de conexões sociais para controlarmos nossas amígdalas. De acordo com o famoso psicólogo Abraham Maslow, temos que nos sentir satisfeitos no âmbito social e claro satisfazermos nossas necessidades biológicas, que incluem alimentação e sexo, para que assim possamos concentrar nossos esforços para o desenvolvimento cognitivo, para podermos lidar com as demandas externas e para que em fim possamos alcançar a auto realização pessoal e espiritual.

Não tem jeito, parece que estamos programados a ser seres sociais e convivermos desta maneira. No entanto, nas últimas décadas, houve uma explosão de pesquisas demonstrando que o ser humano, por meio de técnicas mentais e respiratórias, pode desenvolver um maior controle sobre estas áreas cerebrais límbicas, responsáveis por desencadear respostas ao perigo. Por meio destas técnicas, é possível viver isoladamente por mais tempo, pois ela age por meio de mecanismos que fazem com que as células cerebrais da amídala não sejam produzidas, como se “enganasse” o cérebro quando está diante de situações que caso contrário seriam percebidas como ameaçadoras. Por este motivo talvez, líderes espirituais do ocidente tem promovido práticas espirituais que clamam permitir a iluminação espiritual por meio de técnicas respiratórias, que induzem os indivíduos este estado de forma individual, em situações onde não há necessidade do uso da fala e há isolamento dos indivíduos.

Não obstante, pesquisas tem demonstrado que estas técnicas não só permitem que o ser humano controle seu medo instintivo e condicionado quando depara com situações estressantes ou de perigo, mas também permite que ele aumente a sua capacidade de criar vínculos sociais. Isto demonstra que culturas que praticam estas técnicas estão tendendo a internalizar os elementos espirituais da vinculação social, por meio deste tipo de práticas individuais, o que antes era feito por meios de rituais espirituais. Uma pesquisa feita pelo departamento de Psicologia da Universidade de Stanford demonstrou que por meio da prática de meditação direcionada a mentalização de atos, sentimentos e palavras de amor e bondade aumentou o sentimento de conexão social, sentimentos positivos direcionados a indivíduos em níveis explícitos e implícitos. Estes resultados sugerem que está técnica fácil de ser implementada melhora emoções sociais e diminui o isolamento social, além de aumentar a conexão social com pessoas desconhecidas. Em muitos outros estudos foi demonstrado que a meditação diminui o declínio em estruturas corticais relacionadas ao envelhecimento, melhora o processamento sensorial, cognitivo e emocional. Isto prova que o ser humano está indiretamente, por meio de rituais pessoas participando e buscando algo que vai além de sua experiência pessoal, ou seja a conexão social.

Não podemos esquecer do papel dos exercícios físicos em controlar o stress e desenvolver os vínculos sociais. O contexto da evolução do ser humano é importante para que priorizemos dimensões mais sutis da estrutura biológica dos nossos ancestrais, as quais dificilmente são priorizadas atualmente. Isto pode ser alcançado por meio de fontes de prazer, como brincar e nos relacionarmos com a natureza. Nossos ancestrais tem conseguido, desta forma, encontrar um meio seguro de controlara áreas cerebrais límbicas responsáveis pelo gerenciamento das emoções e do stress, de forma a aproveitar seu tempo livre para desenvolver meios culturais de se descontrair, se divertir, descansar e alcançar a homeostase, ou seja o equilíbrio do ambiente interno do organismo para manter uma condição estável, de forma a otimizar seus recursos e aproveitar seu tempo para este fim.

Como podemos notar existem meios individuais que podemos utilizar com o fim de aumentarmos nosso controle emocional diante de situações estressantes, assim como meios coletivos de alcançar este objetivo que essencial para lidarmos melhor com a demanda do meio ambiente. No entanto ambos estão intrinsecamente relacionados, uma vez que ao meditarmos aumentamos nossa capacidade social, desenvolvemos áreas cerebrais responsáveis pela empatia e geramos mudanças morfológicas na amídala, o que muda a percepção do stress (perigo)  ao passo que quando nos relacionarmos socialmente de forma positiva, seja por meio de rituais, jogos, brincadeiras, ou por outros meios, também possibilitamos o desenvolvimento de áreas cerebrais responsáveis pela empatia e controlamos nossa resposta ao stress.

Por meio da compreensão da natureza social histórica do ser humano, junto com estudos controlados podemos estar seguros da importância do relacionamento social par o ser humano. Não importa qual sejam suas inclinações religiosas, os estudos sobre a cultura dos nossos ancestrais demonstram o propósito e o impacto dos rituais, que é a vantagem evolutiva das conexões sociais.Tendo em mente os meios adotados pelo ser humano ao longo de sua história evolutiva, podemos encontrar oportunidades no nosso dia a dia para criarmos rituais semelhante ao adotado por nossos ancestrais em meio a nossas condições atuais para que possamos viver com mais saúde e alcançarmos nossos objetivos.

Referências

http://nmr.mgh.harvard.edu/~lazar/Articles/Lazar_Meditation_Plasticity_05.pdf

http://nmr.mgh.harvard.edu/~lazar/Articles/Holzel-SCAN-2010.pdf

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18837623

http://spl.stanford.edu/pdfs/Hutcherson_08_2.pdf

 

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