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Por: Dr. Jason Fung

cerebro imagem 2

Apesar das preocupações populares, o jejum tem benefícios potencialmente incríveis para várias funções cerebrais. Talvez o benefício mais surpreendente possa decorrer da ativação da autofagia, um processo de limpeza celular. Recentemente, um dos pioneiros da pesquisa em autofagia recebeu o Prêmio Nobel de Medicina de 2016 em reconhecimento. O jejum também tem efeitos anti-convulsivos.

Do ponto de vista evolutivo, os mamíferos respondem à privação calórica severa com redução do tamanho de todos os órgãos com duas exceções proeminentes – o cérebro e os testículos masculinos. A preservação do tamanho dos testículos também é uma vantagem significativa na tentativa de transmitir nossos genes para a próxima geração.

A preservação da função cognitiva faz muito sentido para a sobrevivência das espécies. Suponhamos que sejamos homens das cavernas, e é inverno e a comida está escassa. Se o seu cérebro começou a diminuir a velocidade, bem, uma baixa atividade mental tornaria muito mais difícil encontrar comida. Nosso poder intelectual, uma das principais vantagens que temos no mundo natural, seria desperdiçado. Cada dia, sem alimentos, iria diminuir lentamente o nosso funcionamento mental até que ficasemoss idiotas, incapazes de exercer a função básica da bexiga, e muito menos sair à procura de alimentos. Durante a fome, a função cognitiva é mantida ou mesmo aumentada.

Isso tem sido conhecido ao longo da história. Na Grécia antiga, os grandes pensadores ficavam em jejum por dias, não porque precisassem perder peso, mas porque acreditavam (corretamente) que o jejum aumentaria sua agilidade mental. Mesmo hoje, nos admiramos os filósofos e matemáticos gregos antigos. Em histórias de prisioneiros de guerra japoneses na Segunda Guerra Mundial, muitos descreveram a incrível clareza do pensamento que muitas vezes acompanha a fome. Neste livro, o personagem principal descreve um prisioneiro que relatou livros da memória com extrema riqueza de detalhes e outro que aprendeu a se comunicar em língua norueguesa em algumas semanas. Incrivelmente, esses feitos eram tão comuns que os prisioneiros simplesmente aceitaram como um fato da vida que a fome aumenta a capacidade cognitiva.

A nitidez mental aumenta durante o jejum

 

Nos mamíferos, a atividade mental aumenta quando há fome temporária e diminui com a saciedade.  Pense em um momento em que você estava realmente com fome. Você estava cansado e preguiçoso? Eu duvido. Seus sentidos provavelmente ficaram hiper-alertas e você estava mentalmente mais afiado como uma agulha. A ideia de que comer constantemente faz você se concentrar melhor é inteiramente incorreta. Existe uma grande vantagem de sobrevivência para os animais que são cognitivamente afiados e fisicamente ágeis em tempos de escassez de alimentos.

Estudos também provaram que a acuidade mental não diminui com o jejum. Um estudo comparou tarefas cognitivas na linha de base e após 24 horas de jejum. Nenhuma das tarefas – incluindo atenção sustentada, foco, atenção, tempo de reação simples ou memória imediata foi  prejudicada. Outro estudo duplo-cego de uma privação calórica “quase total” de 2 dias não encontrou efeito prejudicial, mesmo depois de testar a cognição, sono e humor.

Quando dizemos que estamos com fome, isso significa que estamos preguiçosos e aborrecidos? Não, significa que estamos hiper-vigilantes e enérgicos. Assim, o jejum e a fome temporária claramente nos ativam para os nosso objetivos (comer ou outros objetivos do dia a dia). As pessoas sempre se preocupam que o jejum vai abafar seus sentidos, mas na verdade, ele tem o efeito oposto e energético.

Esses tipos de testes são fáceis de serem encontrados em estudos com animais. Os ratos idosos foram colocados em regimes de jejum intermitentes e melhoraram consideravelmente suas pontuações de coordenação motora e testes cognitivos. As notas de aprendizagem e memória também melhoraram após a jejum intermitente. Curiosamente, houve maior conectividade cerebral e crescimento de novos neurônios a partir de células estaminais.

Acredita-se que isso seja mediado em parte por BDNF  (Fator de crescimento neural – Brain Derived Neurotrophic Factor). Nos modelos animais, tanto o exercício quanto o jejum aumentam significativamente a expressão de BDNF em várias partes do cérebro. A sinalização BDNF também desempenha um papel no apetite, atividade, metabolismo da glicose e controle autonômico dos sistemas cardiovascular e gastrointestinal.

Doenças neurodegenerativas e jejum

 

Existem também modelos de ratos muito interessantes de doenças neurodegenerativas. Os ratos mantidos em jejum intermitente, em comparação com ratos normais, apresentaram menos deterioração relacionada à idade dos neurônios e menos sintomas em modelos de doença de Alzheimer, doença de Parksinon e Huntington.

restrição calórica e memória

Memória muito melhor nos participantes do estudo que fizeram restrição calórica temporária (Similar ao jejum)

Nos seres humanos, os benefícios para o cérebro podem ser encontrados durante o jejum e durante a restrição calórica de curto e médio prazo. Durante exercícios e/ou restrição calórica, há aumento da atividade sináptica e elétrica no cérebro. Em um estudo com 50 indivíduos idosos normais, o teste de memória melhorou significativamente com 3 meses de restrição calórica não excessiva (30% de redução em calorias).

Neurogênese é o processo onde células-tronco neurais se diferenciam em neurônios que são capazes de crescer e formar sinapses com outros neurônios. Tanto o exercício quanto uma dieta mais moderada em calorias parecem aumentar a neurogênese através de vias, incluindo a BDNF.

Ainda mais interessante, o nível de insulina em jejum parece ter uma correlação inversa direta com a memória também. Ou seja, quanto mais baixo você consegue reduzir a insulina em jejum, uma maior melhora no escore de memória é encontrada.

memória níveis de insulina gráfico

No mesmo estudo, a memória foi muito superior nos participantes que tinham os níveis de insulina baixos ( Insulina baixa está relacionada ao jejum, restrição calórica e /ou dieta Low-carb)

 

O aumento da gordura corporal (medido pelo IMC) também foi associado ao declínio das habilidades mentais. Usando medidas detalhadas do fluxo sanguíneo para o cérebro, os pesquisadores identificaram a relação direta entre um IMC mais alto e a diminuição do fluxo sanguíneo para as áreas do cérebro envolvidas na atenção, raciocínio e função superior. O jejum intermitente é um método para diminuir a insulina, ao mesmo tempo em que diminui a ingestão calórica.

 

O jejum pode prevenir a doença de Alzheimer

 

A doença de Alzheimer (DA) é caracterizada pela acumulação anormal de proteínas. Existem duas classes principais – placas amiloides e emaranhados neurofibrilares (proteína tau). Os sintomas da DA correlacionam-se estreitamente com a acumulação dessas placas e emaranhados. Acredita-se que essas proteínas anormais destroem as conexões sinápticas nas áreas de memória e cognição do cérebro.

Certas proteínas (HSP-70) atuam para prevenir danos e mal dobramento das proteínas tau e amiloides. Nos modelos de ratos, o jejum diário em dias alternativo aumentou os níveis de HSP-70. Autofagia (faxina na célula) remove estas proteínas tau e amiloides quando estão danificadas, além de “converte-las”. Este processo, também, é estimulado pelo jejum.

Há evidências substanciais de que o risco de Mal de Alzheimer está relacionado à obesidade. Um recente estudo duplo com base na população demonstrou que o ganho de peso na idade média de uma pessoa predispõe ela à doença de Alzheimer.

Em conjunto, isso sugere uma possibilidade fascinante na prevenção da doença de Alzheimer. Mais de 5 milhões de americanos têm a doença e esse número provavelmente aumentará rapidamente devido ao envelhecimento da população. A doença cria fardos significativos para famílias que são forçadas a cuidar de seus membros aflitos.

Certamente, o jejum pode ter benefícios significativos na redução de peso, diabetes tipo 2, juntamente com suas complicações como danos nos olhos, doenças renais, danos nos nervos, ataques cardíacos, acidentes vasculares cerebrais, câncer. No entanto, a possibilidade está presente, do poder do jejum de impedir o desenvolvimento da doença de Alzheimer.

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5 Comentários

  1. Marcos davi disse:

    Nivel de glicose e insulina baixos melhoram a capacidade mental, entao a dieta cetogenica eh aplicavel?

  2. MM disse:

    Há problema na prática de atividade física de força durante o jejum prolongado, ou seja, durante o jejum de mais de 24 horas, de forma que o indivíduo permaneça em jejum após a atividade? E em especial para mulheres há alguma informação, Caio? Desde já, agradeço!

    • Caio Fleury disse:

      Sim, pode haver queda de performance se for praticado em jejum de 24h. É melhor não treinar neste dia, ou fazer um treino mais leve… 16 horas é mais tranquilo, principalmente para aeróbicos… Mas tem que estar cetoadaptado. Obrigado

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