Expectativa de vida dos nossos ancestrais

Homem de 100 anos da tribo Kitava

Este post é uma tradução livre de  “Just How Long Did Grok Live, Really?“, escrito por Mark Sisson e publicado em seu blog Marks Daily Apple. 

A especulação sobre a expectativa de vida dos nossos ancestrais é divertida e potencialmente iluminadora, mas eu acho que examinar a vida, ainda que imperfeita, dos exemplos de caçadores-coletores modernos oferece um insight ainda maior. Com certeza, o ambiente mudou, as fontes de alimentos selvagens diminuíram em diversidade e avaliabilidade e a civilização moderna invadiu, se intrometeu e interrompeu, mas as poucas populações caçadoras-coletoras que restaram exibindo um estilo de vida relativamente intocado representam a janela mais promissora sobre o como a vida realmente era e quanto isso durou para nossos ancestrais. Felizmente, alguns pesquisadores – Gurven e Kaplan – tiveram a brilhante ideia de observar os estudos etnográficos feitos com verdadeiras populações de caçadores-coletores vivos e analisaram os dados disponíveis sobre a real expectativa de vida e taxa de mortalidade. Eles acharam informações muito interessantes.

As populações que eles observaram foram classificadas em: caçadores-coletores (CC), coletores-horticulturais (CH), e caçadores-coletores aculturados (CCA). Os caçadores-coletores eram os grupos sem contato significante com culturas externas e incluíam os !Kung, os Ache, os Agta, os Hadza e os Hiwi. Os coletores-horticulalistas, caçavam, coletavam e usavam alguma agricultura. Eles incluíam os Yanomamo Xiixana, os Tsimane, os Machiguenha e os Gaini. Os caçadores-coletores aculturados tinham um contato siginificante e constante com as culturas externas e incluíam Aborígenes Australianos do Território Norte, os Tiwi, e os Warao, assim como outros grupos dos !Kung, Agta, Hiwi e Ache. Gurven e Kaplan também observaram os suecos de meados dos século 18.

Homem de 100 anos da tribo Kitava

Homem de 100 anos da tribo Kitava

Na média, 57%, 64% e 67% das crianças viviam até os 15 anos entre os caçadores-coletores “intocados”, coletores-horticulturalistas e caçadores coletores aculturados, respectivamente. Isto faz um sentido perfeito, dado o que sabemos sobre as taxas de mortalidade infantil em populações caçadoras-coletoras.

O grupo mais “selvagem”, os CC, que dependiam da caçada e das alimentos coletados também tiveram as maiores mortes infantis, enquanto os CC com dietas similares mas com acesso presumível a certos adereços modernos tiveram a melhor sobrevivência infantil. É importante notar que os grupos aculturados deste estudo eram caracterizados pelo aumento do acesso a imunização e cuidado médico, especialmente para crianças; a aculturação das populações tradicionais nem sempre tem este efeito benéfico em sua saúde e longevidade (considere a saúde dos índios nativos americanos, que vivem em reservas com acesso a farinha branca, açúcar e óleo vegetal).

Na verdade, o primeiro contato com culturas industriais ou “civilizadas” geralmente resultou em um aumento inicial massivo nas taxas de mortalidade infantil (doenças, principalmente; os Ache perderam cerca de 40% de sua população para doenças estrangeiras), mas o pós-contato foi caracterizado pela redução na mortalidade infantil, mesmo se comparado as taxas pré-contato. As reduções na mortalidade dos CC eram maiores na infância e declinavam assim que a população envelhecia.

Dos sujeitos que atingiam os 15 anos, a porcentagem dos CC que chegaram aos 45 anos é maior do que a porcentagem dos CH que chegaram aos 45 anos, mas não muito – 64% e 61%. Os CCA se sobressaem aqui, 79% dos que atingem os 15 anos chegam aos 45. Você pode até dizer que os caçadores-coletores aculturados do estudo eram essencialmente Primal, comendo e se movimentando tradicionalmente ao mesmo tempo que tinham acesso a medicina moderna.

A partir dos 45 anos, a média da expectativa de anos restantes é de 20.7, 19,8 e 24,6 para os CC, CH e CCA, respectivamente. Tirando ou pondo alguns anos, todos podem esperar viver cerca de duas décadas se eles ainda estiverem vivos com 45 anos – muito longe de uma “vida curta, bruta e desagradável”.

Houve uma variabilidade entre as diferentes populações dentro de cada categoria, é claro, e em outro momento pode ser interessante examinar as diferenças sobre expectativa de vida e estilo de vida (dieta, doenças, etc), entre, por exemplo, os Ache e os !Kung, para ver se eles se alinham com a nossa perspectiva Primal. Os Ache, por exemplo, dependem fortemente da caça, tradicionalmente obtendo mais de 80% de suas calorias de fontes animais, e tem altos níveis de homicídio (incluindo infanticídio e guerras com paraguaios rurais) e eles tendem a uma maior mortalidade adulta.

Os autores não tem nenhuma ligação ou interesse na dieta Primal, mas nós podemos selecionar alguns fatos que se relacionam diretamente aos nossos interesses. 

Primeiro, eles destroem a noção comum que os caçadores coletores todos morrem cedo. A expectativa de vida é reduzida pelas taxas de mortalidade infantil, mas fica claro que os caçadores-coletores – os povos mais similares aos nossos ancestrais Paleolíticos – podem ter e de fato tem, expectativas de vida “modernas” com a média de 72 anos.

Art De Vany, 75 anos, segue a dieta paleo há 30+ anos.

Art De Vany, 75 anos, segue a dieta paleo há 30+ anos.

Segundo, Gurven e Kaplan mostram que “ as mortes degenerativas são relativamente pequenas, ligadas imensamente aos problemas no início da infância”. Ataques cardíacos e derrames “aparecem raramente” e maior parte das mortes ocorrem quando a pessoa está dormindo e livre de sintomas óbvios ou patologias. A maioria das mortes “degenerativas” é atribuída a “idade avançada”. “Doença” é a principal causa de morte entre os grupos de todas as idades em todas as populações, exceto pelos Aches sem contato com a civilização (primariamente caçadores), e os autores dividem as doenças em categorias diferentes. As que mais mataram foram as doenças respiratórias infecciosas, como pneumonia, bronquite e tuberculose. Doenças gastrointestinais também foram frequentes causas, respondendo por 5 a 18% das mortes, com a diarréia ficando em terceiro lugar (provavelmente proveniente de parasitas combinado com a má nutrição). A violência também foi uma causa de morte significante.

 Terceiro, e este é crucial, a pesquisa destrói o outro argumento comum que uma dieta evolucionaria rica em produtos animais ainda pode ser perigosa porque nós não evoluímos para viver mais do que quarenta anos, que é quando as doenças relacionadas à dieta começam a aparecer. Gurven e Kaplan salientam um ponto importante: já que a maior parte da história evolucionária do homem ocorreu no curso de 2 milhões de anos antes do advento da agricultura, e que aquele período pré-agricultural conferiu a maior parte dos “grandes traços distintivos de nossa espécie, como cérebros grandes, vida longa, casamento e investimento masculino na prole”, é provável que o “padrão de mortalidade específico para a idade” também tenha evoluído “durante o nosso passado de caçadores coletores”.

Ou seja, eles propõe que o potencial humano para a longevidade não é um produto da vida moderna; ao invés disso, ele aparenta ser uma característica moderna compartilhada por todos os Homo sapiens. Os avanços na tecnológica médica reforçam e suportam esta longevidade inerente ( como demonstrado pelos aumentos moderados na expectativa de vida dos caçadores coletores aculturados e nas populações industriais modernas) mas não são responsáveis por ela.

Estes dados mostram que a longevidade humana não é um produto da vida moderna. Eles mostram que nós temos uma tendência inerente à vida longa, desde que satisfaçamos certos critérios – basicamente, a aquisição contínua de alimentos e abrigo e a ausência de infecções, traumas doenças e machucados violentos. O estilo de via evolucionário que exclui alimentos processados e industrializados modernos e promove níveis saudáveis de atividade física é o mesmo que suportou nossa evolução para Homo sapiens de vida longa. Tecnologia moderna, melhorias sanitárias e avanços médicos são meramente as cerejas no topo de uma estrutura já bastante sólida.

Mark Sisson, 60 anos e primal há 10 anos

Mark Sisson, 60 anos e primal há 30 anos

Referência

http://www.anth.ucsb.edu/faculty/gurven/papers/GurvenKaplan2007pdr.pdf

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