Quanta carne e peixe nossos ancestrais comiam? Parte 2

Clique aqui para ler a parte 1 deste artigo, escrita em 2011.

animal2

Estudos epidemiológicos como este, apesar de não serem perfeitos, permitem que tenhamos uma boa noção do que nossos ancestrais do período paleolítico recente consumiam, em termos de grupos de alimentos e proporção de macronutrientes.

Um dos estudos mais abrangentes sobre o tema foi conduzido por Dr. Cordain, cientista da universidade do Colorado.

Em seu estudo, ele e sua equipe revisaram um mapa etnográfico conduzido pelo pesquisador Murdoch, com o objetivo de relatar os alimentos  consumidos por 229 sociedades primitivas estudadas no começo do século 20, que servem como uma boa estimativa do que nossos ancestrais do período paleolítico (2,5 milhões a 10 mil anos atrás) consumiam.

Neste estudo, se analisarmos as dietas das populações africanas contemporâneas ou outras dietas de caçadores coletores equatoriais, nós encontramos uma ingestão significante de plantas. Por exemplo, veja o gráfico abaixo.

 % do consumo de plantas:

a

 

O ser humano sempre viveu perto de água (rios e lagos), o que para a população de nossos ancestrais humanos da África do período paleolítico significa maior disponibilidade de fontes vegetais e maior disponibilidade de peixes.

Veja o gráfico: % consumo de peixes

c

De 1/4 a 1/3 das fontes animais das populações em média são provenientes de peixes e o resto predominantemente de animais selvagens.

Nossos ancestrais do período paleolítico mais recente, de acordo com muitas evidências, certamente se subsidiavam de grandes quantidades de animais como fontes de energia, uma das causas responsáveis pela extinção dos grandes mamíferos selvagens durante as últimas centenas de milhares de anos. A extinção de grandes animais pode indicar um excesso de caça dos humanos, e pode indicar outros fatores também como mudança climática e migração do ser humano moderno para a Europa (aproximadamente 35 mil anos atrás).

Veja o gráfico da % consumo de animais:

d

Foi constatado por Dr Cordain e sua equipe que há uma média de 65% das calorias consumidas pelas 229 populações estudadas provenientes de fontes animais.

A proporção de macronutrientes constatada por Dr Cordain e sua equipe foi de em média de 19% a 33% proteína, 35% a 55% de gordura (gordura é a principal fonte de energia entre as sociedades estudadas) e 22% a 40% de carboidratos.

O consumo de carboidratos pela maioria das populações estudadas é considerado um consumo baixo a moderado de carboidratos por muitos pesquisadores, sendo consideravelmente mais baixo que o consumo de carboidratos de muitas populações modernas (em torno de 45-50%). No entanto muitas outras populações de caçadores coletores também se subsidiam de uma dieta mais baixa ainda em carboidratos (15-a 20%) e alta (40% a 45%) sendo que há uma menor incidência de populações com um padrão de consumo que se distancia mais desta média.

A porcentagem de carboidratos estimada pelo Dr. Cordain e sua equipe dentro dos alimentos vegetais consumidos foi de 69%, e um consumo maior de vegetais e frutas selvagens, tubérculos, sementes e oleaginosas.

vege2

Em outras palavras, segundo a estimativa deles, uma população de caçadores e coletores não pastorial que consome 35%  das calorias diárias de vegetais estaria consumindo em média 25% das calorias diárias em forma de carboidratos. Já uma população pastorial que se subsidia em parte por laticínios estaria consumindo uma proporção significativamente maior de carboidratos considerando um consumo de 65% de alimentos de fontes animais.

Ex: Todas as tribos pastoriais como os Masai, Dinka, Muhima, Neurs e Watusi mantém um gado e consomem principalmente produtos do leite e não a carne. (2000 kcal de leite fornece aproximadamente 150g de carbo, enquanto as carnes não fornecem nada).

Para exemplificar melhor, em uma dieta de 2200 calorias diárias com 65% destas calorias provenientes de fontes animais (sem laticínios) haveria um consumo de 530 calorias provenientes de carboidratos, equivalente a 132,5 gramas de carboidratos diariamente. Já em uma dieta com 2000 calorias diárias esta proporção resultaria em um consumo de 125 gramas de carboidratos diários e em uma dieta com 1800 calorias diárias o consumo de 112 gramas de carboidratos diários.

Tabela: Consumo de fontes animais e vegetais de alimentos de algumas das 229 populações estudadas.

tabelatribos

 

As populações de climas mais extremos da Europa, America do Norte e Groelândia, onde o consumo de alimentos provenientes de fontes vegetais representa mais que 69% das calorias consumidas diariamente, representam grande parte das populações estudadas. Se isolarmos as populações nórdicas, a média de consumo de carboidratos subiria para em torno de 27 a 45% das calorias diárias, de acordo com o atlas etnográfico, e o consumo de vegetais subiria para perto de 50% das calorias diárias consumidas por essas tribos.

As evidências indicam que o ser humano se originou e evoluiu como espécie humana na maior parte do tempo em um clima equatorial e não em um clima seco das savanas ou temperado. Os fósseis dos primeiros humanos são encontrados em associação com florestas, lagos, rios, etc. Os hominídeos bípedes parecem ter evoluído em florestas tropicais e equatoriais e não em terras áridas, de modo ao genoma humano ter se originado e se desenvolvido em adaptação a um nicho ecológico equatorial africano e somente posteriormente provavelmente tiveram que se adaptar a outros climas durante alguns períodos. Os ecossistema favorito dos seres humanos não são as savanas, como outros animais, muito devido ao fato de haver pouca disponibilidade de água e recursos neste ambiente.

 

congo1

Congo – África

Outras dietas dos caçadores coletores se desenvolveram subsequentemente ao deslocamento da África para outros continentes, como o oriente médio, há aproximadamente 125.000 anos e o sul da Ásia há 50 mil anos. Os descendentes europeus talvez tenham sofrido pressões seletivas que reforçaram uma adaptação para um consumo superior de animais (acima de 70%), sendo que já habitam a Europa há aproximadamente 35 mil anos, no entanto, provavelmente não são grandes o suficiente para caracterizar o padrão de consumo histórico evolutivo do ser humano ao longo dos últimos 2 milhões de anos, que está mais de acordo com um clima não tão distante do equador. O tempo passado na Europa representa menos de 1,5% do tempo do ser humano descendente de europeus como espécie.

Populações africanas e orientais possuem histórico de maior consumo de fontes vegetais de alimentos, se comparadas com as populações do norte dos EUA, Europa e Groelândia. O padrão de consumo de alimentos vegetais VS. animais em muitas populações de caçadores e coletores também está sujeito a grande variabilidade, de acordo com as estações do ano, podendo subir além de 70% das calorias diárias em forma de vegetais (como no caso dos Aches do Paraguai) e podendo chegar a menos de 30% durante o inverno. A tribo dos San Kung, por exemplo foi estudada por dois pesquisadores durante o verão e o inverno, sendo que pesquisadores reportaram consumos diferentes em determinadas estações do ano.

 Benefícios do consumo de alimentos de fontes animais

Carnes de órgãos sempre foram tradicionais na história do ser humano como espécie e eles ainda são venerados e consumidos em abundância em muitas sociedades no mundo todo.

Em sociedades primitivas de caçadores coletores (ex: índios brasileiros) eram reconhecidas como sendo sagradas e selecionadas para os indivíduos de maior status social, variando de uma cultura para outra, como por exemplo, os xamãs, os pajés, etc. Muitas vezes elas eram reservadas para os membros mais velhos da tribo e para mulheres grávidas.

Este fato não vem do acaso, existe uma sabedoria ancestral inerente a todas as culturas indígenas caçadoras e coletoras de que por algum motivo, elas são especiais, o que se traduz na linguagem de hoje em dia como sendo nutricionalmente superiores a outros alimentos. Carnes de órgãos são uma das fontes mais concentradas de nutrientes importantes entre todos os alimentos.

figado

Elas são ricas em vitaminas lipossolúveis, como vitaminas A, D, E e K, assim como a vitamina B12, ferro, magnésio, ômega 3 DHA, coQ10, creatina, colina, fosfatidilserina, L-carnitina, taurina, aminoácidos essenciais, colágeno etc. O ômega 3 DHA, ácidos graxos essenciais, são vitais para a saúde cardiovascular, a saúde cerebral e  a melhora de humor. A vitamina D  é essencial para a saúde cardiovascular, é importante para a absorção do cálcio e a densidade óssea. Vitamina K é essencial para a síntese de proteína no sangue e nos rins e a vitamina E é necessária para a ação da vitamina A e C. A alimentação tradicional de culturas não civilizadas e não industrializadas tem demonstrado predominantemente como sendo ricas nesses nutrientes essenciais, que trabalham de maneira sinergética entre eles para que nosso organismo obtenha o melhor benefício delas.

O consumo de alimentos ricos em colesterol é essencial e mães e gestantes devem ter um cuidado especial para assegurarem de que estão se alimentando e alimentando seus filhos com estes alimentos nutricionalmente densos.

O consumo de colesterol não reflete os níveis de colesterol sanguíneos.

O consumo de colesterol não causa doenças cardíacas. O colesterol é essencial para o bom funcionamento do organismo, que se utiliza dele para produzir hormônios, manter a saúde intestinal e reparar células danificadas.

Seu consumo regula o stress, energia e hormônios sexuais (estrogênio, DHEA,testosterona)

Ele tem um papel essencial na saúde dos nossos ossos.

 Benefícios do consumo de alimentos de fontes vegetais

De acordo com o famoso antropólogo Eaton, as melhores estimativas presentes indicam um consumo de carboidratos médio de 30 a 40% das calorias diárias consumidas, sendo que grãos eram raramente consumidos e um consumo médio de alimentos de origem animal perto dos 50% das calorias diárias por nossos ancestrais humanos da África do período paleolítico mais recente.Anthony Sebastian e sua equipe da universidade de Califórnia e outros pesquisadores estimam um consumo médio  de origem animal um pouco mais baixo, na faixa de 40% do total das calorias diárias e um consumo de carboidratos médio em torno  de 40%  das calorias diárias.

A dieta contemporânea de países ocidentais industrializados produz acidose metabólica, ao contrário da dieta dos nossos ancestrais do período paleolítico, o que está relacionado a aceleração do processo de envelhecimento e perda óssea.  A dieta dos nossos ancestrais na maior parte do tempo resulta em uma leve alcalose metabólica sistêmica, resultado de uma alta carga alcalina consumida.

Dietas que restringem os carboidratos dos vegetais e das frutas são inconsistentes com os nossos padrões nutricionais ancestrais e prováveis de gerar problemas de saúde.

Anthony Sebastian el. al estimaram que em uma dieta que constitui-se de 35% das calorias de fontes animais e o resto principalmente de vegetais, frutas e tubérculos os níveis de NEAP (Produção acida endógena líquida) sobem para 147 mEq/d ( alcalina) comparado com uma estimativa de uma dieta típica americana, com um consumo  de animais parecido, mas com  o consumo de alimentos de origem vegetal provenientes predominantemente de grãos, que resulta em níveis de NEAP de -78 mEq/d, ou seja uma dieta altamente ácida. Da mesma maneira estimaram que um consumo de 55% de calorias provenientes de animais vs 45% de fontes vegetais como frutas vegetais e tubérculos, resulta em níveis de NEAP de 132 mEq/d versos uma dieta com 45% de fontes vegetais provenientes de grãos que resulta em -21 mEq/d.

Grãos produzem muita acidez, e sozinhos contribuem para aproximadamente 38% do total da carga acida fornecida por dietas contemporâneas.

Nossos ancestrais do período pré-agricultura podem ter consumido grandes quantidades de carboidratos na forma de tubérculos. Steffan Lindeberg e muitos outros pesquisadores defendem uma dieta rica em fontes vegetais como tubérculos, frutas, verduras e algumas sementes, rica em carboidratos como sendo consistente com o passado evolucionário humano.

Uma boa parte dos alimentos vegetais coletados era proveniente de tubérculos e sementes, de acordo com os estudos do Dr cordain, representando aproximadamente 20% dos alimentos de origem vegetal, cada um. 

mandi

Consumir uma dieta rica em vegetais e frutas melhora os marcadores sanguíneos, como o colesterol HDL, VLDL, glicose em jejum, entre outros, alem de reduzir os riscos de doenças cardíacas, incluindo infartos e derrame e certos tipos de câncer.

Dietas ricas em alimentos contendo fibras, como oleaginosas, frutas, verduras e tubérculos, estão associadas à redução da gordura corporal, obesidade e diabetes tipo2.

Uma dieta rica em carboidratos de baixa carga glicêmica na forma de frutas e verduras ricas em potássio produz uma carga básica no corpo, ao invés de uma carga ácida, o que reduz a excreção de cálcio, aumentando sua disponibilidade para uso, o que está relacionado a uma diminuição da perda óssea.

As frutas e vegetais ricos em potássio compõem aproximadamente 25% a 35% da energia diária, das populações caçadoras e coletoras. O conteúdo de potássio é mais de três vezes maior do que o consumo diário de um típico americano.

  • Indivíduos que consomem bastante carboidratos de baixa carga glicêmica como vegetais, tubérculos e frutas com relação a indivíduos que consomem grãos e açúcar possuem melhores marcadores sanguíneos e menor risco de desenvolvimento de doenças
  • O consumo de fibras nas dietas dos povos caçadores e coletores na maioria das vezes excedia 80g/dia. Isto é incomparavelmente maior do que o consumo americano atual, de 15g/dia.

A dieta das populações envolve um aumento substancial no consumo de frutas e vegetais e tubérculos, se comparado à dieta ocidental, extremamente alto comparado com os padrões atuais, na maioria das vezes excedendo 1 kg/dia!!

vegetais-vitaminas

Dado a grande disponibilidade de alimentos de fontes vegetais atualmente é de grande benefício para nós desfrutarmos destes alimentos que oferecem diversos benefícios a saúde, como parte fundamental para uma dieta saudável com espaço para algumas variações entre alimentos e macronutrientes, conforme a adaptação pessoal de cada indivíduo a diversas variáveis como os níveis de atividade física, estação do ano, humor, etc.

A sociedade atual tende a ter uma ideia arcaica da saúde dos nossos ancestrais, ao dizer que não estamos fadados a seguir o padrão de consumo dos nossos ancestrais alegando que estamos regredindo desta forma, baseando-se no fato de que nossos ancestrais viviam menos e possuíam saúde inferior. Este argumento, não passa pela primeira camada de escrutínio científico e não é suportado pela maioria dos especialistas no assunto. O consumo de alimentos de fontes animais foi essencial para o desenvolvimento do cérebro de nossa espécie, assim como foi responsável por pelo desenvolvimento estrutura física superior, desenvolvimento ósseo e facial e dentário como foi constatado por diversas pesquisas que observaram uma maior densidade óssea, altura, desenvolvimento físico e dental de populações de caçadores e coletores modernos e dos nossos ancestrais do período paleolítico, se comparados às populações rurais passadas e modernas.

No entanto, é questionável até que ponto o ser humano possui a habilidade de se adaptar a um consumo muito menor de alimentos de origem animal sem comprometer a saúde e principalmente a saúde das próximas gerações, dado a composição nutricional única destes alimentos, que é essencial para a saúde humana, e o número baixo de populações consumindo menos de 40% das calorias diárias por meio de alimentos de origem animal, mesmo em meio a grande disponibilidade de alimentos de fontes vegetais.

Além das diversas pesquisas demonstrarem os malefícios causados por uma dieta vegana/vegetariana, eu pessoalmente experimentei os efeitos colaterais de falta de alimentos de origem animal, como falta de energia e disposição, níveis baixos de libido e testosterona, piora nos níveis de concentração, perda de massa muscular a níveis muito baixos, problemas hormonais, entre outros. De acordo com minha experiência, um consumo mínimo de 20%-25% das calorias diárias (aproximadamente 600-700 calorias) na forma de alimentos de animais de alto valor nutricional, como ovos, peixes, bacon e órgãos é primordial para a saúde física e mental. Nosso histórico evolutivo neste caso é coerente com minha experiência pessoal.

Por enquanto, nada mais apropriado do que a frase do próprio Dr. Cordain:

 

“ Qualquer dieta inconsistente com os padrões nutricionais dos nossos ancestrais é provável de gerar problemas à saúde”

 

 Referências

http://ajcn.nutrition.org/content/71/3/682.abstract?ijkey=fc968a0292f97285860d8d8c78563eaa3343cf22&keytype2=tf_ipsecsha

http://en.wikipedia.org/wiki/Early_human_migrations

http://www.ana-jana.org/Journal/journals/ACF5FB7.pdf

http://ajcn.nutrition.org/content/71/3/682.full

http://ajcn.nutrition.org/content/71/3/665.full#ref-1

http://ajcn.nutrition.org/content/76/6/1308.full

http://www.ana-jana.org/Journal/journals/ACF5FB7.pdf

Banner1

3 Comentários

  1. Wagner Dantas

    Vocês sabem me explicar o motivo do amendoim não ser considerado na dieta paleolítica?

    Grato.

    Responder
    1. Bruna Machado (Publicações do Autor)

      Wagner,

      O amendoim é uma leguminosa, e não uma castanha oleaginosa como muitos pensam. As leguminosas como feijões, grão de bico, etc. contém antinutrientes que podem ser problemáticos para o consumo. Já o amendoim é particularmente muito rico em lectina e gera reações alérgicas em muitas pessoas, sendo ele muito mais problemático do que os anteriores. Ele também é um alimento rico em ômega 6, que promove a inflamação. Com certeza não é uma boa opção! Obrigada pelo comentário!

      Responder
  2. Mari

    Sugestão: postem receitinhas saborosas com carnes de órgãos 😉
    Adoro esse blog!
    Abs!

    Responder

Deixar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Comments Protected by WP-SpamShield Spam Blocker

Show Buttons
Compartilhe no Face
Entre em contato
Hide Buttons