Porque os genes não determinam o seu destino

carlosNa segunda parte da entrevista (confira a primeira aqui), Dr. Carlos Braghini explica que o ramo da nutrição se afastou da verdade à respeito do que realmente é uma alimentação saudável, ao buscarem respostas na “má ciência”, muito guiada por interesses comerciais de grandes indústrias. Esta “ciência” não reconhece que existe uma complexidade nos alimentos e em sua interação com o nosso organismo e a ciência  para ser útil precisa ser interpretada de maneira holística e não simplista.  Além disso, a ciência tem que reconhecer que existe uma resistência cultural para o consumo de alimentos saudáveis e uma grande dificuldade em fazer com que pessoas  sigam orientações nutricionais como tratamento de doenças.

 Em seu livro, Ecologia Celular, o senhor explica que diabetes, hipertensão arterial, problemas cardíacos, câncer etc. não são definidos por nossos genes, mas pelas escolhas que fazemos ao longo de toda a nossa vida. Nossa experiência pessoal nos mostra o quão difícil é para o público em geral entender este conceito, devido a ideia passada pela mídia e as autoridades de saúde de que somos geneticamente destinados a desenvolver certas doenças, ou até mesmo morrer de doenças crônicas, como se não houvesse solução. Como seu pacientes lidam com estas informações?

Nestes momentos, sou obrigado a concordar com o que sugeriu o pensador francês Frederic Bastiat, em longínquos anos 1850:

“Temos de admitir que nossos adversários neste argumento têm uma vantagem significativa sobre nós. Eles precisam de apenas algumas palavras para expor uma meia-verdade, e que, a fim de mostrar que é uma meia-verdade, temos de recorrer a longas e áridas dissertações”.

Vale para todas as meias verdades de sua segunda pergunta. O pensamento comum é que está escrito no DNA. De acordo com a visão simplista do DNA e do desenvolvimento, o organismo é a informação do DNA transformada em carne e osso. O DNA de mosca faz moscas, o DNA de galinha faz galinhas, o DNA de gente faz gente. Mas na verdade não é assim que O DNA atua no desenvolvimento.

Há várias formas de se encarar O DNA. Uma solução de DNA humano, picotado em pedaços relativamente curtos, é apenas um líquido pegajoso num tubo de ensaio.  Em cada minúsculo núcleo das células humanas, há cerca de dois metros de fios de DNA. Se o núcleo de uma célula humana fosse aumentado mil vezes – seria então do tamanho de um comprimido de aspirina -, haveria quase dois quilômetros de fiação de DNA empacotados lá dentro! Sem dúvida, há uma imensa quantidade de espaço para muitas informações e projetos, numa fita de DNA tão longa.  Mas o DNA não faz nada para que essa informação seja transformada em moscas, galinhas ou pessoas.  Ele fica lá, paradão.  Assim como as receitas para uma maravilhosa refeição ficam num livro na estante, ele também fica à espera.

Portanto, como é que o DNA “faz” a mosca?  A resposta direta é que ele não faz.  Mas um raciocínio um pouco complicado é necessário para compreender por que não, e é por isso que a maioria das pessoas pensa que o DNA faz a mosca.  Mas moscas não são feitos de DNA, assim como vitela cordon-bleu não é feita do papel e da tinta do livro de receitas.

Mas para que você possa entender como pode alterar suas células, precisa romper com algumas crenças em relação ao seu material genético. Seu material genético, o DNA, não determina o que você vai ser e nem como suas células vão funcionar. Talvez em parte, mas você não pode responsabilizar exclusivamente seu DNA pelo que você se tornou. Você pode culpar seus genes por ter olhos azuis, mas não pela sua devoção aos refrigerantes.

dna

Cada uma de nossas células contém seu próprio material genético que, para atuar, depende da constante interação com os elementos dispersos pela matriz extracelular. Uma mudança no meio extracelular tem a habilidade de se dirigir à célula e induzir a fabricação de 2.000 ou mais proteínas diferentes de um único gene. Este conceito é uma mudança fantástica na maneira como entendemos o funcionamento de nosso organismo. Enquanto o DNA é importante para o funcionamento e a saúde de cada célula, a operação desta célula é moldada pela interação com o meio que a circunda e não somente pelo código genético.

Para entender melhor a dimensão desse conceito, nosso DNA possui 30.000 genes, dos quais 18.000 não têm função definida e são chamados “genes silenciosos” ou “pseudogenes”. Alguns são obsoletos remanescentes evolutivos, mas por outro lado, muitos deles são responsáveis por informar aos genes próximos a eles como se comportar perante um agente estressor interno ou externo, ajudando-os a responder rapidamente às circunstâncias. Esses genes silenciosos interagem sinergicamente com os elementos presentes no meio extracelular que adentram as células.

Nascer com algo não quer necessariamente dizer que é genético. Pode até haver uma predisposição genética, mas o que provoca a doença é um conjunto de fatores, inclusive os hábitos alimentares. Este é um importante conceito que precisa ser mudado. O material genético tem um impacto na sua saúde bem menor do que você pensa. A expressão desses genes depende de como você vive a vida, e não o contrário.

Observe alguém obeso. É provável que mais pessoas na sua família sejam obesas. Agora observe o que ele come; provavelmente come o que aprendeu com sua mãe, que por sua vez aprendeu com sua mãe, que por sua vez… e por aí vai. Atualmente, este problema é mais grave, pois nossos ancestrais comiam muito mais alimentos integrais, enquanto nós fazemos parte da geração das comidas prontas e industrializadas, e estamos repassando esta batata-quente para nossos filhos. Calcula-se que 50% das crianças nascidas hoje nos Estados Unidos serão diabéticas até a idade adulta. O que suas mães estão comendo agora é que está determinando o futuro destas crianças.

 Na sua opinião, quais são as principais barreiras para a divulgação do conhecimento sobre nutrição baseado em evidências científicas no Brasil?

O maior problema reside exatamente na busca de evidências científicas. Essa visão científica foi o que nos afastou da conexão com a vida. As pesquisas em nutrição são feitas basicamente de duas maneiras principais: avaliar um nutriente em particular ou avaliar o impacto da ingestão de alimentos ou grupos alimentares numa dada população.

Vamos discutir o primeiro caso. A ciência nutricional estuda um nutriente de cada vez, uma abordagem sujeita a falhas. O problema é: a ciência “nutriente por nutriente” tira o nutriente do contexto do alimento e a dieta do contexto do estilo de vida. A ferramenta de trabalho de qualquer cientista, inclusive dos cientistas nutricionais, é a análise. Analisar significa retirar algo do contexto, isolá-lo, para observá-lo melhor, mas mesmo o alimento mais simples é uma coisa muito complexa para se estudar. Num oceano de compostos químicos, muitos dos quais em dinâmica e complexa relação entre si, um cientista nutricional pode apenas separar os componentes e estudá-los isoladamente, de certa maneira ignorando suas complexas interações. Isso é o que chamamos de ciência reducionista.

O reducionismo científico é uma ferramenta poderosa, mas como controlar o que acontece quando um elemento altamente complexo como um alimento interage com elementos infinitamente mais complexos, como os comedores deste alimento, os seres humanos? O risco dessa visão mecanicista e reducionista é não levar em consideração que as pessoas diferem uma das outras. Algumas populações podem, por exemplo, metabolizar os açúcares melhor que outras; dependendo da sua herança evolutiva, ser ou não capaz de digerir a lactose do leite. A flora intestinal específica de uma pessoa ajuda a determinar o quão eficientemente ela digere o que come, de modo que a mesma ingestão de 100 calorias pode entregar mais ou menos energia dependendo da proporção de bactérias no intestino. O comedor humano é muito mais complexo do que se imagina e não é correto pensar no alimento como simples combustível.

Ancestrais do homem-1

Não comemos nutrientes, mas alimentos, e estes podem se comportar diferentemente dos nutrientes que contêm. Os pesquisadores acreditam, baseados em dados epidemiológicos comparativos de populações diferentes, que uma dieta rica em frutas e verduras confere alguma proteção contra o câncer. E, naturalmente, se perguntam quais são os nutrientes nesses alimentos responsáveis por este efeito. Uma hipótese por eles considerada é a de que os antioxidantes presentes no produto fresco — compostos como betacaroteno, licopeno, vitamina E — sejam o fator protetor. Faz sentido: estas moléculas, que a planta produz para se proteger dos átomos altamente reativos de oxigênio produzidos pela fotossíntese, acabam combatendo os radicais livres presentes em nossos corpos. Pelo menos é o que parece acontecer no tubo de ensaio, mas ao serem produzidas em laboratório e encapsuladas como suplementos antioxidantes, essas moléculas não se comportam da mesma maneira. De fato, no caso do betacaroteno tomado como suplemento, os cientistas descobriram que, na verdade, ele aumenta o risco de certos cânceres.

Atenção novamente! Como explicar isso? Podem ser as idiossincrasias da digestão humana. Talvez as fibras (ou algum outro componente) numa cenoura protejam as moléculas antioxidantes de destruição pela acidez do estômago; ou pode ser que tenha sido isolado o antioxidante errado. O beta é somente um dentre os vários carotenos encontrados nos vegetais. Ou talvez o betacaroteno só funcione como antioxidante atuando em conjunto com alguma outra substância ou processo químico; sob outras circunstâncias, pode se comportar como um oxidante. Ou ainda, o betacaroteno sintético pode se comportar diferentemente do natural.

De fato, basta olhar a composição química de qualquer vegetal para identificar essa complexidade. Somente a lista dos antioxidantes identificados no tomilho que usamos como tempero é composta por dezenas de substâncias: 4-terpineol, alanina, anetol, apigenina, ácido ascórbico, betacaroteno, ácido caféico, canfeno, carvacrol, ácido clorogênico, crisoeriol, eriodictiol, eugenol, ácido ferúlico, ácido gálico, ácido isoclorogênico gama-terpinene, isoeugenol, isotimonina, kaempferol, ácido labiático, ácido láurico, acetato de linalil, luteolina, metionina, mirceno, ácido mirístico, naringenina, ácido oleanólico, ácido p-cumórico, ácido p-hidroxi-benzóico, ácido palmítico, ácido rosmarínico, selênio, tanino, timol, triptofano, ácido ursólico, ácido vanílico… Isto é o que você ingere quando come uma folhinha de tomilho.

Algumas destas substâncias químicas são destruídas pela digestão, outras não; são absorvidas e fazem coisas indeterminadas em seu corpo: ativam algum gene silencioso, interagem com outro gene ou se ligam a algum radical livre, para impedir que ele destrua uma molécula de DNA dentro de alguma célula. Seria ótimo saber realmente o que faz o tomilho dentro de nós, mas enquanto isso não ocorre, basta saber que este tempero, consumido há milhares de anos pelos homens dá um ótimo sabor aos alimentos.

Quando se descobriram os macronutrientes, os cientistas pensaram que sabiam tudo sobre os alimentos; quando as vitaminas foram isoladas, pensaram de novo realmente entender os alimentos e o de que o corpo necessita para ser saudável. Hoje são os polifenóis e carotenóides que parecem importantíssimos. Se quisermos aprofundar esse raciocínio, quem sabe o que existe no tomilho que ainda não foi isolado? Será que algum composto do ramo de tomilho pode afetar a digestão do alimento ao qual ele foi adicionado, ou talvez estimular a produção de uma enzima desintoxicante. Como saber? E o que existe no âmago de, digamos, uma cenoura? Para o comedor de cenoura, a boa notícia é: não importa. Essa é a principal diferença entre comer alimentos e comer nutrientes: você não precisa entender a complexidade da cenoura para colher seus benefícios.

cenoura

No segundo caso o problema se repete. Há um abismo enorme entre o ambiente fechado dos ensaios clínicos e laboratórios e a vida real. É por isso que um suplemento ou medicamento contendo a “substância da moda” que mostrou resultados estupendos nos trabalhos científicos simplesmente não funciona na prática clínica.

Vamos pegar um exemplo fictício, mas muito real. Ninguém tem dúvida que uma recomendação dietética para controle da pressão arterial produz efeito semelhante (e em alguns casos mais dramático) do que simplesmente usar medicamentos anti-hipertensivos. Entretanto, se pegarmos um grupo de 100 pessoas com pressão alta na rua e as educarmos sobre a dieta a ser seguida, depois de 6 meses seria surpreendente que mais de 5% estariam seguindo as recomendações iniciais.

Esse é um dos motivos do por que não é tão fácil transcrever os resultados fantásticos das pesquisas com alimentação para a população em geral. O fato é que, frequentemente, é este grupo altamente motivado que voluntariamente se apresenta à equipe de pesquisa (e é acompanhado diligentemente por estes).  Em contraste, se estes mesmo pacientes forem convidados a tomar um medicamento para controlar a pressão arterial é provável que mais de 50% deles estariam ainda tomando-o após os mesmo 6 meses.

É por isso que se diz que, embora a “eficácia” da dieta seja até maior do que o uso de medicamentos, o medicamento é mais “efetivo” como tratamento da hipertensão na vida real.

Alimentação envolve questões muito mais complexas, pois diz respeito a indivíduos infinitamente heterogêneos e com infinitas implicações biopsicossociais. Alguém que afirma ter “a resposta certa” sobre alimentação é um grande mentiroso.

 Quais são os três principais conselhos que você daria para quem está interessado em ser mais feliz, ter mais saúde e qualidade de vida?

Antes de tudo:

1. Faça-se as 3 perguntas existenciais: onde vivo, como vivo, com quem vivo;
2. Aumente a percepção do entorno: o que sou, o que quero, o que é bom e o que é ruim para mim são perguntas que não podem ser respondidas exclusivamente pelo intelecto.

Depois,

3. Abandone as sensações de culpa, pois qualquer reaprendizado passa por aceitar nossas    dificuldades, sendo assertivos em nossas afirmações. Assim, em vez do “não consigo”, sou “fraco”, diga para você mesmo:

  • Eu aceito que minha maneira de viver está provocando desconforto físico, emocional e que minha vida está em risco.
  • Eu escolho aceitar meu corpo neste exato momento.
  • Aceitar a mim mesmo é uma escolha que somente eu posso tomar.
  • Eu aceito que minha herança familiar (genética e/ou comportamento) influencie a forma de meu corpo.
  • Eu aceito como é importante comer conscientemente para poder viver uma vida plena e saudável.
  • Aceitar meu corpo como está hoje não significa que eu o considere perfeito.
  • A aceitação nasce dentro de mim. Eu não a procuro fora.
  • Eu aceito que minha dignidade não está refletida em meu corpo, mas que é determinada pelo que eu sou.
  • Eu aceito as mensagens sociais e culturais sobre minha forma corporal, mas as rejeito sem julgamento de valor.

Um abraço,

Carlos Braghini Jr.

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Médico e Quiropraxista; foi professor de Fisiologia Humana da Faculdade de Medicina Souza Marques (RJ) e coordenador pedagógico do Curso Livre de Quiropraxia do IBRAQUI. Filiado ao TSNMA – Texas State Naturopathic Medical Association. Autor dos livros “A História das Artes Médicas – da pré-história à idade moderna”, “O Que é Quiropraxia – um guia para todos aqueles que se tratam com terapias manuais” e “Ecologia Celular – o papel da alimentação e do meio ambiente no envelhecimento e na longevidade”. Atua em seu consultório privado em Novo Hamburgo, Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo. Coordenador de conteúdo do site www.ecologiacelular.com.br. Palestrante e consultor empresarial sobre Controle da Dor, Reequilíbrio Metabólico e Reeducação Alimentar. Membro da Brasil Academy of Anti-Anging & Regenerative Medicine (BARM).

2 Comentários

  1. Danielle

    Interessantíssima a entrevista!
    Li o livro e adorei, estava buscando algo que realmente se encaixasse na minha vida, e aqui encontrei as respostas, por exemplo, do porquê meu marido de 28 anos mesmo comendo pouco e mais grãos integrais não consegue perder peso e está c/ colestorol alto!
    Estamos começando a dieta primal aqui em casa pra toda a família, vocês podem me tirar algumas dúvidas:
    – o óleo de canola também é tão nocivo quanto os outros óleos de vegetais?
    – vocês tem dicas para uma lancheira saudável sem trigo e açúcar? Com meu filho de 2 anos a transição para a nova dieta está extremamente fácil mas com meu filho de 7 anos, puxa, é bem difícil!!! Zero suco? Água de coco industrializada também é ruim?
    – é normal no começo da dieta sentirmos algumas indisposições, um pouco de tontura e náusea?

    Muito obrigada!!!

    Responder

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