Muito além do colesterol

Decidi novamente tratar deste assunto, que trouxe à tona diversas dúvidas e receios por parte de pessoas que seguem a dieta e sofrem uma pequena elevação nos níveis de colesterol total e LDL (o oposto também ocorre com freqüência). Houve um tremendo progresso nos estudos, que indicam o que está por trás do desenvolvimento de doenças cardíacas ao longo dos últimos 10 anos, embora o governo e grandes instituições médicas continuem se atendo a uma ciência falha e incompleta de cinco décadas atrás, para dizer o mínimo, o que contribui para a atual confusão e incompreensão  sobre o assunto.

 Colesterol sanguíneo com a dieta low carb

Aproximadamente mais de 80% dos níveis sangüíneos de colesterol total são endógenos, ou seja, são produzidos internamente pelo organismo, independente dos alimentos que são consumidos, o que pode ser observado por meio de estudos randomizados e controlados. No que diz respeito à dieta low-carb/Paleo, diversos estudos foram conduzidos para que sejam avaliadas as mudanças nos níveis de colesterol e outros marcadores nestes indivíduos.

Você pode encontrar pelo menos meia dúzia destes estudos especificamente em meu livro: A dieta dos nossos ancestrais.

Neste estudo muito abrangente, publicado no Obesity Reviews, por exemplo, foi feito uma meta-análise de 17 estudos low-carb, que em média constataram que não há alterações nos níveis de colesterol LDL dos participantes, embora aumente um pouco em alguns indivíduos e diminua em outros. Contudo, obviamente, houve uma melhora substancial em todos os fatores de risco de desenvolvimento de doenças, como aumento do colesterol  HDL “bom”, diminuição dos níveis de triglicérides, insulina, glicose em jejum, pressão sanguínea, perda de peso/gordura visceral (abdominal) e diminui nos níveis da proteína C reativa, que assim como a gordura visceral e os anteriores, é um indicador de inflamação e infecção relacionado à aterosclerose.

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Além destes 17 estudos, existem centenas de estudos e outras meta-análises fornecendo resultados muito coerentes entre si. Bem vindos à ciência da nutrição! :)

Neste estudo conduzido pelo centro médico da universidade de Duke, nos EUA, 120 participantes adultos e obesos foram selecionados aleatoriamente e divididos em dois grupos, sendo um para uma dieta baixa em carboidratos (low carb) e o outro grupo para uma dieta com pouca gordura, colesterol (exógeno) e baixa em calorias.

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Para o grupo dos participantes que seguiram uma dieta low-carb, foram permitidas quantidades ilimitadas de alimentos de origem animal (carne, aves, peixe e mariscos), quantidades ilimitadas de ovos, quatro onças de queijo duro, duas xícaras de hortaliças, como alface, espinafre ou aipo, e uma xícara de vegetais sem amido, como brócolis, couve-flor ou aspargos. Não houve qualquer limitação sobre as calorias totais neste grupo, porém os carboidratos foram mantidos abaixo de 20 gramas por dia no início da dieta. Já para a dieta alta em carboidratos e baixa em gordura houve uma recomendação de um consumo de 500 a 1000 calorias a menos do que consumiam antes.

Em geral, ambas as dietas tiveram efeitos positivos, obviamente, pois os indivíduos eram obesos, contudo os participantes do grupo low carb foram muito mais favorecidos. Os resultados foram os seguintes:

  •  Embora os níveis de triglicérides tenham melhorado significativamente em ambos os grupos, ele diminuiu 74,2 pontos no grupo low carb e 27,9 pontos para o grupo com baixo teor de gordura, ou seja menos da metade que o grupo low-carb.
  • Aumento de 5,5 pontos nos níveis de colesterol HDL na dieta low carb, uma mudança significativa, enquanto os indivíduos que seguiram a dieta de baixo teor de gordura não obtiveram uma mudança significativa.
  • Os níveis de colesterol LDL não se alteram significativamente em ambos os grupos, mas pequenas partículas de LDL (VLDL), um indicador de doenças cardíacas, diminuíram em torno de 20 pontos em ambos os grupos.

Nas palavras do autor do estudo Eric Westman, professor de medicina do centro médico da  universidade de Duke:

A dieta pobre em carboidratos tem um efeito favorável sobre o risco cardíaco”

É possível que o denominador comum de ambas as dietas seja a ausência do açúcar e carboidratos refinados“

Alguma dúvida de que não há relação entre o colesterol consumido (exógeno) e o colesterol produzido pelo organismo (endógeno)? Para os amantes dos ovos que são altamente ricos em colesterol, entrego-os mais uma pesquisa desta vez feita especificamente com este alimento. Neste estudo o consumo de ovos não causou alterações significativas no colesterol total dos indivíduos estudados (baseline: 203.8 mg/dl; post-treatment: 205.3) e proporcionou benefícios cardiovasculares (preservou a função dos eicosanóides). Novamente esta é a media, alguns indivíduos tendem a aumentar ligeiramente e outros tendem a diminuir.

Desculpem por não resistir, mas vou mostrar outros. Só mais alguns eu prometo! :)

Neste estudo, assim como nas outras centenas de estudos também têm demonstrado pouca relação entre o colesterol consumido e o nível de colesterol sanguíneo, o que contraria novamente a “sabedoria” popular altamente influenciada pela mídia e a indústria de alimentos processados e colocando a hipótese-lipídica em cheque junto com as evidências de que o colesterol sanguíneo total é um pobre ou insignificante indicador de risco do desenvolvimento de doenças cardiovasculares.

Na prática clínica, médicos  que fazem o acompanhamento de indivíduos seguindo uma dieta low-carb também encontram ambos os casos obviamente, uma pequena diminuição, um pequeno aumento, ou nenhuma alteração nos níveis de colesterol LDL.

Colesterol HDL é o melhor previsor e não o LDL

A questão que ocorre a muitas pessoas é se existe algum risco de ter um LDL alto  (acima de 130 mg/dl). O que estudos claramente dizem é que diminuir o colesterol LDL a custo de uma diminuição nos níveis de HDL coloca o indivíduo em maior risco de desenvolver doenças cardíacas, esteja ele acima do peso ou não. Isso é o que dietas ricas em carboidratos, baixas em gordura e com restrição calórica tendem a resultar na maioria dos indivíduos, principalmente se ela for rica em trigo e carboidratos refinados.

Agora, sempre é possível encontrar exemplos  de indivíduos que prosperam em uma dieta baixa em gordura (porém não tão baixa) e rica em carboidratos,  sem sofrerem diminuição significativa nos níveis de HDL, ou nenhuma diminuição como no caso do estudo acima do Eric Westman, principalmente se eles são provenientes de boas fontes de carboidratos sem glúten e não refinados.  Contudo, como o mesmo e outros estudos demonstram, os marcadores que indicam uma vantagem cardio-protetora são melhores em uma dieta low-carb.

Esportistas podem se enquadrar nesta categoria. No entanto, é possível encontrar muitos atletas com níveis baixos de HDL,  mesmo com boa capacidade cardiovascular e magros, sem estarem acima do peso. Neste caso, o risco dele desenvolver doenças cardíacas é aumentado, sejam altos ou baixos os níveis de LDL.

Trouxe dos meus arquivos este estudo realizado pela Incor, instituto do coração da universidade de São Paulo (USP) para iluminar mais ainda esta questão e para dar crédito a pesquisadores brasileiros que são pouco mencionados em nosso site.

Estudo realizado por Carlos Magalhães, Antonio Carlos Chagas e Desiderio Favarato:

Alessandra Pereira 24/03/2005

“Durante seis anos e três meses, 165 pessoas com entupimento parcial das coronárias (insuficiência coronariana) submetidas à cirurgia no InCor para colocação de ponte de safena foram acompanhadas pela equipe e divididas em dois grupos. O que os diferenciava era a taxa de HDL. O colesterol bom estava abaixo de 35 miligramas por decilitro (mg/dL) de sangue em 101 homens e mulheres, e acima desse valor em 64 pessoas operadas.

Após esse período, 20,7% das pessoas com HDL inferior a 35 mg/dL haviam morrido, ante 6,25% do segundo grupo. Entre todos os fatores de risco avaliados – diabetes, hipertensão arterial, triglicérides alterado, tabagismo e taxa de colesterol -, o nível baixo de HDL foi o único capaz de predizer se uma pessoa com aterosclerose tinha chance maior ou menor de sobreviver. Sinal de que a HDL em quantidades reduzidas merecia mais atenção do que vinha recebendo.”

Já o cardiologista José Rocha Faria Neto da Pontifícia Universidade Católica do Paraná verificou em 236 indivíduos atendidos pelo InCor a relação entre os níveis de uma proteína chamada homocisteína no sangue e a aterosclerose. Quando que o nível de homocisteína no sangue estava mais elevado havia mais placas de gordura nas coronárias dos indivíduos e ele descobriu que sua maior concentração alterava a função do endotélio, levando a inflamação lesão e formação de placas de gordura dos vasos sanguíneos.  Outras proteínas que são mais freqüentemente usadas como referências para a inflamação são a apolipoproteína B e a proteína C reativa.

Apesar do HDL a princípio ser a melhor referência para este fim, o ponto central da questão, novamente, é que deve ser feita uma avaliação completa do indivíduo, de modo a verificar os níveis de Triglicérides,  insulina, glicose em jejum, pressão sanguínea, perda de peso/gordura visceral (abdominal),diminui nos níveis da proteína C reativa entre outros.

Diferenças individuais

Não estou sugerindo que todos devessem seguir uma dieta low-carb (menos de 100-150g de carboidratos por dia), mas os estudos mostram que a maioria das pessoas a curto e médio prazo (é muito difícil conduzir estudos a longo prazo com qualquer dieta) se beneficiam demais com tal regime alimentar, embora eu acredite que algumas pessoas possam se beneficiar consumindo um pouco mais carboidratos e outras menos dentro desta faixa. Entretanto, por meio de depoimentos é possível notar que alguns indivíduos como uma parte dos atletas, por exemplo, ou indivíduos com bastante tolerância a carboidratos podem não ser prejudicados com um consumo um pouco mais alto de carboidratos, sem ter que consumir pouca gordura.

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 Um ótimo exemplo são os indivíduos das populações nativas da polinésia francesa que consomem quantidades de moderadas à altas de carboidratos (180-350g/dia) e ainda assim consomem em torno de 50% das calorias consumidas diariamente na forma de gordura saturada. Os níveis de colesterol HDL são altos, triglicérides baixo, o IMC é sete pontos mais baixo que a média da população americana (19-20) e os níveis de colesterol total são de 170-210 mg/dl. Possuem uma saúde excepcional e o risco de desenvolverem doenças degenerativas é extremamente reduzido.

Isso significa que você deva consumir muito carboidratos, ou que você deveria consumir 50% das calorias diárias na forma de gordura saturada, ou que você deveria ter o colesterol entre 170 a 210 mg/dl? Obviamente não, pois existe uma grande variabilidade genética entre indivíduos, algo que eu continuo repetindo diversas vezes no blog.

Outro exemplo é que uma pequena minoria de indivíduos nas sociedades modernas não possui a  vesícula biliar, ou que possuem pedra na vesícula o que significa que tem problemas para digerir a gordura. Neste caso, paradoxalmente, uma dieta rica em gordura diminui o risco de problemas com a vesícula, que são desencadeados a partir de uma dieta rica em açúcar e baixa em gordura, associado ao aumento dos níveis de triglicérides, diminuição do HDL e o sobrepeso (link).

Também existem indivíduos com colesterol total extremamente alto (acima de 300 mg/dl), o que geralmente é um indicador de um histórico familiar genético de hipercolesterolemia, uma condição genética que diminui a taxa de remoção das partículas de colesterol LDL do sangue, uma mutação rara nos genes destes indivíduos que os tornam mais propensos a desenvolverem esta condição genética. Neste caso, é preciso haver um acompanhamento profissional mais específico com uma abordagem que almeje a redução do excesso de colesterol LDL.  Outro fator a ser considerado é o grau dos danos metabólicos infligido ao organismo de um indivíduo, como o grau de resistência a insulina e leptina por exemplo, que compromete a tolerância a glicose/carboidratos do mesmo.

Na semana que vem irei fazer um análise mais detalhada do colesterol LDL e de quando ele pode aumentar o risco de comprometer a função cardíaca e a saúde em geral.  Aguardem!

6 Comentários

  1. Rejane Azevedo

    Faço paleo há 3 meses. fiz exames de sangue em 02/14; colesterol hdl-91 mg/dl, colesterol total 352 mg/dl, glicose 99 mg/dl, triglicérides 146 mg/dl.
    Repeti novamente em 10/14: colesterol hdl 61 mg/dl, colesterol total 391 mg/dl, glicose 86 mg/dl, triglicérides 57 mg/dl. Fiquei meio preocupada com o colesterol total. Alguma dica?
    Obrigada.

    Responder
    1. Bruna e Caio (Publicações do Autor)

      Para um melhor atendimento a duas necessidades específicas sugerimos nosso serviço de coaching de emagrecimento. http://pages.rdstation.com.br/coaching-de-emagrecimento-970e730910fb1d15fc37
      Muito obrigado!=)

      Responder
  2. André

    Você disse que se o indivíduo estiver com colesterol total acima de 300 mg/dL o mesmo deve ter um acompanhamento de um profissional.

    Mas se este mesmo indivíduo tiver um colesterol HDL alto, por exemplo 80 mg/DL e o triglicerídeos baixo, por exemplo 50 mg/dL?

    Você acredita que o colesterol total deveria ser mais importante do que as proporções HDL/Total e Triglicerídeos/HDL?

    Veja que usando os valores de exemplo acima a proporção HDL/Total é de 0,26, sendo que o ideal é ficar acima de 0,24.

    Já a proporção Triglicerídeos/HDL é de 0,625, sendo que o ideai é ficar abaixo de 2.

    Responder
    1. Bruna e Caio (Publicações do Autor)

      Bom dia André! Sempre é bom ter um acompanhamento de um profissional independente do valor.

      Estudos clínicos e randomizados, além de dados estatísticos mostram que a ralação HDL/triglicérides é um previsor mais efetivo de doenças cardiovasculares e o colesterol total um previsor marginal de risco.

      Abs

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  3. michele

    meu marido esta com o TG mto baixo, 47, já li que não é mto bom. Sabe dizer como melhorar?

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    1. Caio Fleury (Publicações do Autor)

      Não é muito baixo =)

      Responder

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