Dr Souto: Entrevista

Tenho certeza que muitos dos nossos leitores já conhecem o Dr Souto, que tem o ótimo blog Dieta Low Carb e Paleolítica, que já recomendamos aqui diversas vezes. Admiramos muito o trabalho do Dr Souto, e o convidamos para uma entrevista para que vocês possam conhecer um pouco mais sobre sua trajetória. Bom proveito!

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O que te motivou a criar um blog sobre alimentação paleolítica e low carb?

 O que me motivou foi a necessidade de divulgar aos quatro ventos o que me parecia uma grande descoberta. Como explico em meu blog, tudo começou quando ouvi uma entrevista de Gary Taubes em um podcast, e em seguida comprei e li o livro “Why we get fat”. Ao terminar o livro, estava com uma mistura de sentimentos, que ia desde a epifania (“como é que eu não pensei nisso antes?”) até a indignação (“como é possível que tudo o que eu aprendi sobre nutrição pudesse estar TÃO errado?”). Depois de ter experimentado eu mesmo, e ter visto os efeitos incríveis sobre a composição corporal e sobre meu bem estar, finalmente superei o receio de me expor publicamente, pois concluí que seria egoísmo manter tudo isso só para mim. Minha vontade era de subir no telhado e gritar para que todos ouvissem! Mas, sendo médico, e com uma reputação a zelar, tinha de fazê-lo com o maior embasamento científico possível. Cada vez que escrevia uma postagem, pensava: o que meus colegas de turma pensariam disso? E foi com este cuidado que iniciei o blog.

Há quanto tempo segue a dieta? Quais foram as principais mudanças na saúde e no corpo que notou ao mudar sua alimentação?

Há cerca de 2 anos. Bem verdade que foi uma jornada. Comecei com low carb puro, tipo Atkins. Comia low carb, mas comia junk food low carb – um monte de coisas diet sem açúcar, um monte de produtos substitutos – como barrinhas de proteína low carb, etc. Aos poucos, lendo os trabalhos de autores como Robb Wolf, Mark Sisson, Loreen Cordain e Jonathan Bailor entre outros, fui amadurecendo minha compreensão de que não é apenas a quantidade de carboidratos que importa, mas a qualidade dos alimentos, e o conceito de “comida de verdade”.

Há mudanças objetivas, e outras subjetivas. A mudança da composição corporal foi notável, com perda de muitos quilos de gordura (cerca de 15) e ganho de vários quilos de massa magra. Os exames se sangue, que já não eram ruins, ficaram muto melhores. HDL de 84, triglicerídeos de 56, proteína C reativa indetectável, testosterona subindo – é realmente incrível. As coisas não mensuráveis incluem uma sensação de bem estar – afinal, saúde não é apenas a ausência de doença, não é mesmo? Alergias desapareceram, nunca mais tive rinite ou sinusite (que me incomodavam desde a infância). Praticamente não sei mais o que é um resfriado. Apenas quando ficamos realmente bem, podemos nos dar conta de como estávamos cronicamente adoentados.

 Como médico, como você enxerga a relação da alimentação como forma de prevenção de doenças, dentro da comunidade médica no Brasil? Como você, pessoalmente, enxerga esta relação?

Infelizmente, o que tenho visto é que os pacientes passam por vários médicos sem que jamais alguém lhes pergunte se estariam dispostos a mudar sua dieta. Acho que isso acontece devido à frustração. Os colegas talvez, no início da carreira, orientassem as pessoas a seguir a pirâmide alimentar. Como isso está fadado ao fracasso, em pouco tempo os médicos concluem que esta etapa é inútil, e partem diretamente para seus receituários. Pessoalmente, eu encaro alimentação como a grande prevenção de doenças crônicas e degenerativas, à frente de outras medidas, à frente mesmo de exercício e até mesmo da cessação do tabagismo. É a coisa mais importante e transformadora do ponto de vista de saúde.

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 Na sua opinião, quais são as principais barreiras para a divulgação do conhecimento sobre nutrição baseado em evidências científicas no Brasil?

No Brasil e no mundo, a grande barreira é o dogma vigente, o senso comum. A ideia de que apenas o que importa são as calorias, a ideia de que a gordura natural dos alimentos faz mal, a ideia de que as sementes cultivadas de meia-dúzia de gramíneas deveriam ser a base da dieta de nossa espécie. No fundo, se você parar para pensar, TODAS estas ideias – que não são baseadas em evidências – são oriundas da indústria alimentícia, e promovidas por ela.

Afinal, se você convencer alguém de que 100 calorias são 100 calorias, tanto faz se forem 100 calorias de coca cola ou de salmão; se você acreditar que a gordura natural dos alimentos faz mal, não poderá mais comer direto da natureza, precisará que a indústria processe os alimentos para você, retirando a gordura e acrescentando sabores artificiais; e se você parar de comer grãos, o que vão fazer com toneladas e toneladas de grãos subsidiados? Alguém precisa comer aquilo que a indústria produz de forma barata, processa, e vende caro, não é mesmo?

Na sua prática clínica, costuma recomendar a alimentação paleo/ low carb para seus pacientes? Qual a reação deles?

Sim, eu costumo recomendar a dieta para aqueles pacientes que estão dispostos a ouvir. Quando o sujeito me procura para assuntos específicos da minha especialidade, e já se trata com seu endocrinologista ou cardiologista, eu não interfiro, a fim de não causar conflitos. Mas quando a pessoa é meu paciente, e está fazendo seu check up, e detecto alterações no sentido de síndrome metabólica, eu explico ao paciente do que se trata, e pergunto: “você quer ser tratado com vários remédios, ou está disposto a fazer uma mudança de estilo de vida”?

Quase sempre as pessoas optam por não tomar remédios, SE VOCÊ LHES DER UMA CHANCE. Infelizmente, é apenas uma minoria dos pacientes que efetivamente segue as mudanças propostas – mas estes poucos sofrem transformações de vida que você não imaginaria que fossem possíveis.

Dr. Souto, como você lida com os eventos sociais onde consumir carboidratos refinados parece ser a norma? Qual é a reação das pessoas?

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Minha impressão é que algumas coisas mais servem como desculpa para justificar o retorno aos maus hábitos do que um motivo real. Há dois tipos de eventos sociais, aqueles em que você pode escolher o que comer dentre as opções oferecidas, e aqueles em que não há opções. Você não é obrigado a raspar o prato. Só porque há um acompanhamento de arroz e batatas com seu filé, não significa que você precise comê-los. Só porque há canapés antes da janta, não significa que vc tenha que comê-los. Mais de uma vez, fui juntamente com colegas de trabalho a um rodízio de pizza – e eu comi apenas o recheio das pizzas. É esquisito? E daí? Tudo depende de sua escala de valores. Se você saísse com um grupo de pessoas que fumam, você fumaria apenas para se misturar? E se elas usassem drogas?

Há outras situações mais difíceis. Se você vai a algum evento mais formal, em que você sabe que não poderá, por exemplo, desmontar o sanduíche, há 2 alternativas: abrir uma exceção e comer, ou jantar antes. Eu NUNCA vou a um evento destes com fome, sempre como antes.

Cada um sabe o que é melhor para si. Quanto a glúten, não abro exceções, nunca como – minhas alergias em seguida retornam (coisas objetivas, que podem ser vistas na pele). Com arroz e batatas sou mais liberal.

No meu caso, é mais fácil, pois as pessoas já sabem de antemão minhas opiniões, e eu posso argumentar com qualquer pessoa sobre o assunto. Imagino que para outras pessoas possa ser complicado. Acho que a melhor reposta é “não estou com fome” ou “não estou bem da barriga”.

Quais são os três principais conselhos que você daria para quem está interessado em ser mais feliz, ter mais saúde e qualidade de vida?

1) Coma comida de verdade;

2) Pratique exercícios físicos de alta intensidade e curta duração;

3) Faça os itens 1 e 2 com prazer, sabendo que você está investindo em seu futuro e qualidade de vida; não encare a coisa como “uma dieta”, algo temporário, e sim como um estilo de vida em que é possível viver bem e sem privações, e ao mesmo tempo ter saúde e bem estar.

Obrigada Dr Souto, pela ótima entrevista! Gostamos muito.

12 Comentários

  1. Patrícia

    Fantástico!

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  2. Armando Marcondes Godoy

    A mudança na minha forma de me alimentar é uma benção! Agradeço o momento que tive a chance de ter novas referências com o blog do Dr. Souto, este site “primalbrasil”, e algumas pessoas que vivem a mais tempo em “low-carb”! (;-)

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  3. Muito bom. Você não sabe como sou grata por este médico ter aberto minha visão em relação ao mundo do emagrecimento.

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  4. Regina Leal

    Mês passado sofri um acidente onde fraturei o tornozelo, ficando 45 dias sem pisar o pé esquerdo. Consequentemente minha rotina de treinos na academia foram pro espaço! No intuito de não ganhar muita gordura nesse período, busquei na internet dietas que pudessem me ajudar nisso. Foi então que descobri a dieta paleolítica, o trabalho do Dr. José Souto, perfil Primalbrasil no Facebook…enfim, li tudo que pude para me sentir segura para iniciar a reeducação alimentar nesses padrões lowcarb. Fiquei tão satisfeita que pretendo seguir este estilo de vida. Perdi 5 kg em 2 semanas, minha disposição aumentou, dores de cabeça tomaram Doril… Chego até a agradecer pelo meu tornozelo quebrado!! Abraços!!!!!

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  5. ELISA AGLIO

    olha já faço essa dieta a 1 mês e posso lhes dizer o quanto estou maravilhada,com tdo o que tem acontecido,perca de peso,perca de medidas,fora a saúde que é outra,quem quiser entrar em contato comigo,so tenho coisas boas a dizer sobre a dieta,

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  6. lucelia

    leio tudo sobre o dr. souto, e maravilhoso como ele consegue na simplicidade esclarecer tudo sobre saúde, e reeducação alimentar. moro em sc. mês que vem vou marcar uma consulta com ele.bjs.

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    1. Bruna Machado (Publicações do Autor)

      :)

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  7. Maria Alm

    Parabéns, que entrevista legal! Adorei, foi muito interessante! Eu também sou um “fan” do Dr Souto :-) Os três principais conselhos no final resuma tudo… Beijos Maria

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  8. Samuel Pereira de Farias

    Não me canso de agradecer ao Dr. Souto, que por meio de seu fantástico blog “abriu meus olhos” para a alimentação. Vocês também tem um papel importante nisso, com esse site maravilhoso!
    Como ele citou na entrevista, há uma sensação de indignação quando percebe-se que as diretrizes nutricionais estão incrivelmente erradas e manipuladas pela dupla mídia/indústria alimentícia. Comecei a dieta, quer dizer… esse novo ESTILO DE VIDA a uma semana e a cada dia mais fico impressionado com a saciedade que se instala, no meu caso também notei uma melhora ENORME na disposição, humor, no sono, regulação intestinal e aquilo que realmente mais me alegrou: a extinção da compulsão alimentar (sinceramente, enquanto eu estava me alimentando já estava contando as horas para comer novamente, eu atribuia isso a ansiedade pré vestibular e cheguei a me consultar com um pisiquiatra, além da “lipidofobia” que já faz parte do passado). Para exemplificar, hoje acordei e me alimentei às 9:30 – omelete de 02 ovos, 03 fat. de queijo minas artesanal, couve + 1/2 abacate com nozes e amendoas – fui à academia às 14:30h e treinei durante 50 minutos de forma intensa (coisa que não acontecia antes, a menos que eu ingerisse grande quantidade de carboidratos 1 hora antes, e eu me exercitei 5 horas depois), não tive nenhum sinal de cansaço – pelo contrário, mais disposição -, almocei às 16:00, e acreditem: AINDA NÃO ESTAVA COM FOME!!! Simplesmente SENSACIONAL!…

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    1. Bruna e Caio (Publicações do Autor)

      Obrigado Samuel! Show!

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  9. Ana Paula

    Só não entendi por que o Dr. Souto disse para fazer exercícios de alta intensidade e curta duração. Ele está especificando isso para as pessoas que querem perder kilos ou a qualquer um? Pois meu objetivo não é emagrecer, tenho um certo pavor disso, até porque peso 53kg e 1,57 de altura, ou seja, NADA de emagrecer! Rs Quero ganhar massa e pratico musculação (amo, inclusive!) e à 6 dias comecei com esse novo estilo de vida!
    Alguém me ajuda? Rs
    E parabéns pelo site, estou amando!

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    1. Bruna e Caio (Publicações do Autor)

      Sim, isso mesmo. =)

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