Comer carne vermelha vai te matar? Parte 2

Esta é a segunda parte da tradução de um artigo analisando o mais recente estudo divulgado sobre carne vermelha. A primeira parte está disponível aqui. 

Agora que a nossa confiança nos questionários de frequência de alimentos está completamente abalada, vamos voltar ao estudo em questão. Para medir os efeitos do consumo de carne vermelha na mortalidade, os pesquisadores do nosso estudo sobre Consumo de Carne Vermelha e Mortalidade dividiram as pessoas em 5 grupos baseados na ingestão de carne vermelha. O primeiro grupo (Q1, em azul), representava as pessoas que reportaram a menor quantidade consumida de carne vermelha por dia, enquanto o quinto grupo (Q5, em vermelho), representava as pessoas que reportaram consumir a maior quantidade de carne vermelha por dia. Para a nossa sorte, os pesquisadores forneceram uma tabela comparando as variáveis das dietas e estilo de vida dos participantes de cada grupo.

Se você suspeitava secretamente que este era um estudo em que ” as pessoas que consomem mais carne vermelha também fazem um monte de coisas não-saudáveis que as fazem morrer primeiro”, você acertou em cheio.

Aqui estão algumas variáveis do estilo de vida, colocados em um gráfico para ilustrar melhor. (“Ingestão de carne” é medida em porções por dia e ” Atividade física” é medida em horas de atividades metabolicamente equivalentes).

Health Professionals Study

Da esquerda para a direta: Ingestão de carne vermelha, atividade física, fumante, uso de multivitaminas. O grupo azul é o que consome menos carne, e o vermelho, o que consome mais.

Nurses Health Study

Da esquerda para a direta: Ingestão de carne vermelha, atividade física, fumante, uso de multivitaminas. O grupo azul é o que consome menos carne, e o vermelho, o que consome mais.

Como você pode ver, os participantes que consomem mais carne vermelha são menos ativos fisicamente, mais propensos a serem fumantes, e menos favoráveis a tomar multivitamínicos (dentro de outras coisas que é possível observar na tabela, incluindo maior IMC, maior consumo de álcool e uma tendência à escolha de alimentos não saudáveis). Embora os pesquisadores tenham dado o melhor de si para mascarar estas variáveis, nem os truques de matemática mais elaborados foram capazes de compensar a imensurabilidade dos detalhes envolvendo um estilo de vida não-saudável, a tendência das pessoas de reportar erroneamente suas dietas e prática de exercícios físicos e qualquer outra insanidade proveniente da tentativa de se lembrar de tudo que foi consumido um ano antes.

E, caso você não tenha notado, a tabela tem ainda duas particularidades. A primeira é essa:

Quantidade de Calorias ingeridas

Q1 (menor consumo de carne)

Q5 (maior consumo de carne)

Esquerda: Estudo com homens; Direita: Estudo com mulheres

Se você ainda tinha alguma dúvida de que as pessoas mentem em questionários de alimentos, isso deve por um fim nisso. Dê uma olhada no consumo médio (reportado) de calorias pelas mulheres do grupo Q1. Sim, isso mesmo, são 1200 calorias. Sim, isso é baixo o suficiente para a maioria das pessoas acordar no meio da noite querendo devorar seu próprio braço. E o grupo Q1 de homens não é muito diferente, reportando 1600 calorias para um homem adulto. Se realmente há um gap de 800 calorias entre as pessoas que comem pouca e as que comem muita carne vermelha, há obviamente alguma coisa muito mais significante acontecendo na dieta deles do que simplesmente a carne escolhida. E se – em um cenário muito mais provável – há uma grande quantidade de apontamentos errados, isso apenas reforça a ideia de que nós não devemos confiar em questionários de frequência de alimentos.

Aqui está a segunda peculiaridade:

 

Porcentagem com alto colesterol

Q1 (menor consumo de carne)

Q5 (maior consumo de carne)

Esquerda: Estudo com homens; Direita: Estudo com mulheres

Ah sim, aqui nós vemos que os sujeitos consumindo menos carne vermelha tem taxas maiores de colesterol, enquanto os sujeitos que comem mais carne vermelha tem taxas menores de colesterol. Dado o interesse da mídia em proclamar causa e efeito neste estudo, me supreende que ninguém tenha anunciado ” Carne vermelha reduz o colesterol!”.

E quanto a parte da morte?

Para aqueles de vocês que esperavam que esta análise fosse eliminar completamente qualquer link encontrado pelos pesquisadores entre carne vermelha e “morte prematura” , aqui vem o anticlimax. No contexto do que há de mais trêmulo, imperfeito e tragicamente  inconclusivo dado observacional, os pesquisadores descobriram que sim, as pessoas que reportaram maior consumo de carne vermelha tiveram uma taxa ligeiramente mais alta de morte por doenças cardíacas, câncer e mortalidade total (embora nós já deveríamos saber, por agora, que correlação não significa causa!). Depois de ajustar os dados por idade e outros fatores que confundiam os resultados, a associação diminuiu mas não desapareceu completamente. (Se você gosta de observar números, você pode checar as tabelas de mortalidade total, mortalidade por doenças cardíacas e mortalidade por câncer, para ver como os riscos de morte mudaram entre os grupos e com vários ajustes estatísticos).

Mas ainda tem mais…

Estes números alardeados pelas notícias tentando assustar a todos – risco de morte maior em 20% ao consumir carne processada e 13% maior ao consumir carne não processada – são exemplos clássicos de como mesmo as descobertas mais insignificantes podem soar dramáticas se você as mostrar da maneira correta (e lembre-se de atribuí-la a Harvard). Se o seu risco de morrer de alguma doença é de 5%, um aumento de 20% só eleva o seu risco a 6%. Isso é muito menos assustador. Especialmente quando há alimentos agradáveis estão envolvidos.

Lições do Passado

Caso você ainda esteja cético que os estudos observacionais podem ser contrários à realidade, de uma olhada no auge da Terapia de Reposição Hormonal há algumas décadas atrás. Em 1991, 30 estudos observacionais – incluindo este aqui, baseado nos dados do Nurses Health – mostrou que mulheres tomando estrogênio tiveram uma redução de 44% no risco de doenças cardíacas, comparadas as mulheres que não realizavam reposição hormonal. Naturalmente, isto levou a literalmente milhões de mulheres a pular no vagão do estrogênio, na busca de vidas longas e mais saudáveis. Um estudo surgiu depois, com experimentos controlados e randomizados, revelando que ao invés de proteger, a terapia de reposição hormonal na verdade aumentava o risco de doenças cardíacas em 29%!

Até que nós realmente tenhamos alguns estudos assim, é impossível saber – mas se a história tem algo a nos ensinar neste aspecto, é uma possibilidade forte. E enquanto nós aguardamos pacientemente por estes estudos bem elaborados começarem a existir, nós devemos ter em mente que a humanidade sobreviveu por muito tempo mesmo – e muito mais em forma do que hoje em dia – sem substituir as costelinhas de porco por arroz integral.

A Carne Vermelha Faz Coisas Ruins Acontecerem?

De alguns anos pra cá, parece que a carne vermelha foi encoberta de misticismo e magia negra. Embora a desintegração das nossas primeiras crenças anti-gordura-saturada tenha colocado a carne vermelha de volta ao trono dos nossos pratos, a carne vermelha ainda não escapou totalmente dos estigmas de ser uma coisa ruim, mesmo sem sabermos porque. Existe uma razão válida para evitá-la?

Assumindo que você tenha dispensado as carnes processadas cheias de nitrato de sódio e tenha buscado as partes mais nobres do animal, o único perigo na carne vermelha está ligado à forma de preparo e não à carne em si. Cozinhar em altas temperaturas, como fritar ou grelhar até que a carne esteja muito bem passada, pode criar uma mutação chamada heterocyclic amines (entre outros componentes) que pode contribuir para o câncer. Embora as pesquisas não sejam totalmente conclusivas ainda, é mais sábio ficar com os métodos de preparo mais gentis, deixando a carne mal passada e cozinhando-a em baixa temperatura (ou melhor ainda, aprender a apreciar um steak tartare).

 Conclusão

Embora a cobertura da mídia sobre este estudo é suficiente para fazer um onívoro sentir raiva, esta é na verdade uma ótima oportunidade de testar nosso pensamento crítico e explorar as deficiências dos estudos observacionais – incluindo os dados em que eles são baseados. Pode até ser que não surja nenhum novo guia de saúde após analisar a ciência ruim, mas é sempre bom ter uma melhor compreensão do que o mundo tumultuoso da pesquisa está dizendo realmente.

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