Carboidratos processados: pegadinhas da mídia

A mídia costuma te enganar diariamente e isso, na maioria dos casos, suponho que não seja nem por serem pessoas maliciosas fazendo as reportagens, mas devido ao fato mais provável de que alguns jornalistas não estão cientes de duas próprias limitações como jornalistas ou ignorância sobre algum assunto.

É para isso que existem os experts em determinado assunto e mais importante ainda, a literatura científica sobre determinado tema. Isso não é exclusivo ao meio dietético, a propósito, é inerente a qualquer atividade jornalista e provavelmente o jornalismo político é o mais tendencioso (pelo menos nos EUA), baseando-se majoritariamente em opiniões e orientações partidárias, ao invés de dados concretos, sejam indicadores econômicos ou dados estatísticos.

No Brasil, infelizmente, o terror rola solto no jornalismo da alimentação. A questão é que para divulgar notícias tem que ter transparência e imparcialidade, o que muitos repórteres infelizmente não tem.  O fato é que a ciência está avançada, ela está extraordinariamente mais adiantada do que a sabedoria convencional ou a opinião pública sobre o tema. Repetindo: Muito à frente do público.

É como se ela estivesse olhando para nossa cara e rindo da gente. É como se estivéssemos na idade média e Galileu Galilei o astrônomo e físico italiano e toda comunidade de físicos da época já subessem que a terra não é quadrada, mas a sociedade ainda presa sob o paradigma da igreja estivesse por fora, desprovida deste conhecimento.

A falácia do espantalho domina o modo como as notícias são divulgadas nos jornais e nas revistas, nos dias de hoje. Não sabe o que é isso? Vamos consultar uma enciclopédia, pois assim como ouro vale mais do que dinheiro, a enciclopédia em geral fornece informações boas de maneira mais imparcial, mais desprovida de opiniões pessoais e com embasamento científico do que a maioria dos jornais do Brasil na minha opinião.

straw man falacy

Parafraseando:

“O espantalho é uma forma comum de argumento  e uma falácia informal baseada em dar a impressão de refutar o argumento de um oponente, enquanto na verdade está refutando um argumento que não foi proposto pelo oponente.

Cria a ilusão de ter refutado ou derrotado a posição de um oponente ao substituir dissimuladamente ela com uma posição diferente para então derrotar o argumento falso.

Este argumento tem sido usado ao longo da história para derrotar o inimigo, ao invés de usar o pensamento crítico.”

Agora vamos para a notícia em foco, uma nova reportagem que saiu na BBC Brasil sobre o consumo de carboidratos e a evolução do cérebro.

pasta         “Veja você… Carboidratos foram importantes para a evolução humana” – como usado pela reportágem.

 

Esta mensagem abaixo da foto junto com a reportágem é um truque de mestre da falácia do espantalho. Ela estimula o disparo de gatilhos mentais que fazem com que a mensagem seja gravada no cérebro das pessoas de uma forma que somente as palavras não fariam. Não é à toa que dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras! A premissa dos estudos citados na reportágem é a de que fontes de carboidratos como tubérculos contribuíram para a evolução do ser humano. Não discordo, contudo, utiliza-se deste argumento para tentar vilificar dietas baixas em carboidratos e insinuar que carboidratos refinados são bons para o cérebro. Onde estão os estudos para comprovar esta afirmação?

Ou seja, é empregado um pequeno pedaço da verdade e transformado em um monstro desprovido de qualquer validade científica, que é absorvido pelos leitores e mais adiante, em um nível mais amplo, na consciência coletiva da população. Claramente, a mensagem apelativa é contagiante e portanto foi empregada para transmitir a ideia central do argumento da reportagem de maneira mais efetiva.

Qual seria a principal reação do público leigo diante de tal mensagem visual? Preciso comer macarrão! Comer macarrão é saudável ou preciso comer diversas fontes de amido para ser saudável e pensar bem. Isso mesmo, pães, torradas, massas diversas, entre outras fontes de carboidratos refinados. Alguém ficou com alguma dúvida aqui? Ótimo, então vamos adiante.

A questão é que a mensagem não reflete o que a ciência diz e tampouco reflete o que os profissionais citados na reportagem estão argumentando. Eu diria que pelo menos 95% dos cientistas estão cientes de que carboidratos refinados induzem ao ganho de peso e causam danos cerebrais na região do hipocampo, no contexto de uma dieta moderna alta em carboidratos, portanto, a mensagem acima não reflete a literatura científica e o consenso dos cientistas. Ainda assim, ela foi empregada para transmitir a mensagem de que o macarrão foi um combustível essencial para a evolução humana, o que é um erro grotesco e seria uma falha patética, se não fosse triste.

O trigo foi um grão primeiramente consumido pela sociedade ocidental há poucos milhares de anos e o trigo moderno na forma de pães, bolos, tortas e macarronada há poucas décadas.

moedor

A máquina de separar os grãos moderna, chamada de debulhador ou debulha, foi inventada no final do século 18 (1778), mas foi apenas difundida e utilizada em larga escala pelas sociedades ocidentais modernas em meados do século 19. Mós, pedras redondas e planas utilizadas no processamento de cereais foram historicamente utilizadas há alguns milhares de anos para triturar cereais e a partir do primeiro milénio depois de cristo, passou a ser utilizada nos moinhos.

O artigo supracitado (da foto acima) foi uma reportagem sobre a evolução do ser humano durante o período paleolítico e seu suposto consumo de carboidratos, que contribuiu para a evolução do cérebro, da mesma forma que animais de caça e qualquer alimento coletado que contribuiu para o aporte energético durante determinados períodos da evolução do ser humano e não a partir de cereais neolíticos (após o surgimento da agricultura)!

grinding tool

Exemplo de moedor de grãos primitivo.

Alguma coisa soa estranha aqui, não é verdade? Temos uma grande contradição, como podem carboidratos refinados como macarrão moderno terem contribuído para evolução humana, sendo que este último nunca esteve presente na dieta humana até pouquíssimo tempo atrás? Não evoluímos no período paleolítico ao longo de 2,5 milhões de anos comendo animais de caça e frutos coletados?

Onde estava a tecnologia para a refinação do trigo moderno, que inclusive foi hibridizado, retrocruzado e dicionado químicos (somados podem ser pior que a modificação genética) dentro dos últimos 50 anos para render e produzir mais? O moinho de água surgiu com os gregos e os romanos há 2 célulos atrás aproximadamente, para processaar grãos e cereais e transformá-los em farinha. Já os Moedores de trigo atuais são os rolos cilíndricos que funcionam apartir da energia elétrica. Eles processam os grãos ao cairem entre os rolos cilíndricos e serem esmagados e triturados.

Há todo um ciclo de moagem, peneragem e purificação para eliminar o farelho, a casca e o gérmen de trigo e apenas selecionar a parte mais interna do grão mais densa em carboidratos para ser transformada em farinha.

Veja você como este processo funciona em mais detalhes neste vídeo:

Nossos ancestrais não poderiam nem sonhar com tal tecnologia a não ser que fossem videntes. Por milhares de anos, grãos foram separados à mão com malhos, um processo muito trabalhoso e demorado e que possibilitada o seu consumo em sua forma inteira, após serem deixados de molho na água para neutralizar os inibidores de enzimas digestivas dos grãos, sendo por vezes processados manualmente, processo que diferentemente do processo feito atualmente pelas máquinas modernas, não triplicava o teor de carboidrato do alimento por grama e rompia suas membranas celulares tornando-os farinhas acelulares. Portanto, com um potencial pró-inflamatório mais elevado, que é demonstrado invariavelmente em todos os estudos comparando uma dieta alta em carboidratos com uma dieta baixa em carboidratos, pricipalmente para uma pequena parcela da população que possui sensibilidade ou intolerância celíaca ao glúten.
carbs acelulares 2

 

Neste estudo, o autor Spreadbury estabelece uma hipótese de que carboidratos acelulares possuem um potencial mais inflamatório que carboidratos não acelulares.

Carboidratos celulares:

“Tubérculos, frutos , ou partes funcionais de plantas tais como folhas e caules armazenar os seus hidratos de carbono em organelos como parte de células vivas com paredes de fibra . Estes são pensados ​​para permanecer praticamente intacto durante o cozimento. Este armazenamento celular parece impor uma densidade máxima de cerca de 23 % de carboidratos não- fibrosos, em massa , a maior parte do peso celular é constituído por água.”

Carboidratos acelulares:

“Os carboidratos acelulares de farinha , açúcar e produtos vegetais ricos em amido processados ​​são consideravelmente mais denso. Próprios grãos também são altamente denso, amidos projetados para rápida mobilização enzimática macroscópica durante a germinação. Enquanto os alimentos com células vivas terão sua baixa densidade de carboidratos ” travados ” até que suas paredes celulares sejam rompidas por processos digestivos, o quimo produzido depois do consumo de farinha acelular e alimentos à base de açúcar é, proposto ter uma concentração de carboidratos maior do que quase qualquer coisa que a microbiota do trato gastrointestinal, desdo intestino delgado até a boca teria encontrado durante a nosso co-evolução como espécie.”

Capisce? Estes tipos de carboidratos densos com paredes celulares rompidas pela máquina nunca fizeram parte da história humana como espécie. Mais adiante, repare no teor de carboidratos dos alimentos modernos (cor escura) vs alimentos ancestrais (cor branca):

carbs modernos vs ancestrais

Nos Estados Unidos, em 1980, quase 6 milhões de americanos (2,2% da população) eram diabéticos e no começo do século 21, após o consumo de açúcar e produtos refinados ter aumentado drasticamente, perto de 20 milhões (7% da população) haviam se tornado diabéticos. Em 2015, 11% da população. Estes dados coincidem com um aumento no consumo de carboidratos nas últimas décadas, de acordo com os resultados do estudo prestigioso realizado pela National Health and Nutrition Examination Surveys (NHANES) nos EUA,

Isso não é nenhuma novidade no meio acadêmico e científico. O aumento do consumo de carboidratos e a substituição de carboidratos tradicionais por carboidratos modernos foi responsável por aumentar aterosclerose e a diabetes tipo 2, que acomete 28,2% nas população de índios xavantes vermelhos do Mato Grosso, de acordo com o endocrinologista João Paulo Botelho, sendo que do total de 4000 habitantes destas tribos, metade se tornou obesa comendo muito macarrão na forma de pão e biscoitos.

Outro detalhe muito importante é que o consumo de carboidratos tradicionais como tubérculos, que inclusive foram retratados no artigo do macarrão, além de poderem promover a saúde dentro de um contexto individual de acordo com o perfil metabólico de alguém, seu consumo em detrimento das fontes processadas implica em uma redução no consumo total de amido em uma dieta, comparada com uma dieta moderna rica nestas fontes refinadas. Portanto, condenar a restrição de carboidratos de alguém independente do grau e das características genéticas individuais (número de cópias do gene AMY1, por exemplo), além de ser anticientífico e dogmático, é inclusive uma vilanização do consumo de dietas de diversas populações no mundo, como a Suécia, por exemplo, que são tradicionalmente baixas em carboidratos e mais adiante, é uma crítica ao próprio consumo de carboidratos tradicionais como vegetais e raízes, em uma dieta que em parte podem ser úteis por substituírem fontes mais densas de carboidratos na dieta, e por isso, induzirem um consumo total de carboidratos inferior.

Sem mais delongas, gostaria de finalizar reiterando a mensagem principal deste post: fiquem atentos às pegadinhas tramadas, que embora muitas vezes sejam feitas com boas intenções, são pedras no caminho da divulgação imparcial e inteligente da boa ciência. Quem paga por este tipo de erro, para variar, é o público que está exposto a este tipo de informação.

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2 Comentários

  1. Frederic Mallrich

    Infelizmente temos uma das piores mídias do mundo, a ética e a informação estão muito distantes entre si, se juntarmos a falta de preparação dos profissionais da área ( do assunto abordado) e a precária formação do jornalista resultará na pior das informações a nossa sociedade. Mentiras que viram verdades e verdades que viram mentiras, essa é a nossa realidade.

    Responder
    1. Bruna e Caio (Publicações do Autor)

      Você está certo, mas calma Frederic! Existem repórteres excelentes, mas muitos ruins também como em qualquer profissão =) Mas concordo muito que a coisa vai muito devagar infelizmente =(

      Responder

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