Açaí é saudável?

http://www.blogjurereinternacional.com.br/2012/02/15/acai-fonte-de-energia-e-menos-calorias-do-que-voce-imagina/

Constantemente, pessoas me perguntam se açaí é saudável, se ele pode ser incorporado na dieta. A resposta é sim e não.

Se estamos falando da fruta açaí em sua forma natural, ela pode ser consumida sem problemas, já o produto açaí do jeito que é vendido por ai é melhor evitar por causa do alto conteúdo de açúcar. Cada pessoa tem um determinado nível de tolerância a frutose e carboidratos em geral, mas via de regra é mais seguro que a quantidade consumida diariamente deva ser baixa ou inexistente. Até 3 ou 4 frutas por dia (exceto abacate, que não tem açúcar) certamente não chega a ser prejudicial para pessoas saudáveis, mas as pessoas correm o risco de ter que substituí-las por outros alimentos mais densos nutricionamente, com gema de ovo, carnes em geral, manteiga, órgãos, etc. Se o consumo deses alimentos essenciais for mantido, certamente o consumo de algumas frutas não é um problema para a saúde, pode ser benéfico e não contribui significantemente para o ganho de peso.

O consumo de excessivo de frutas em substituição a alimentos mais nutricionalmente densos como as carnes não é muito prático e não é recomendado, não é ótimo para a saúde mental. Alguns indivíduos podem tolerar, mas a saúde mental do indivíduo pode ser prejudicada, resultado da carência de nutrientes essenciais para a saúde física e mental, como vitaminas lipossolúveis tais como vitaminas A, D, E e K, assim como a vitamina B12, ferro, magnésio, omega 3 DHA, coQ10, creatina, colina, fosfatidilserina, L-carnitina, taurina, etc.

O alto consumo de frutose desencadeia mudanças no cérebro nas áreas responsáveis pelo controle do apetite. O consumo excessivo de frutas implica no consumo excessivo de açúcar e gera oscilações nos níveis de glicose sanguínea e o desequilíbrio no sistema dopaminérgico (neurônios excitatórios relacionados a motivação e recompensa), apresentando um risco de sobrecarregar o sistema nervoso, tornando-o mais suscetível ao desenvolvimento de distúrbios mentais como transtorno obsessivo compulsivo, síndrome de tourette, ansiedade crônica, transtornos alimentares, síndrome do pânico, entre outras doenças. Este é um dos motivos pelo qual o consumo de vegetais nutricionalmente densos é preferível ao consumo de frutas.

Segue abaixo uma tabela comparando o nivel de açucar, glicose e fructose de algumas frutas e verduras a cada 100g.

frutose
Fonte: NAL USDA National Nutrient Database

Notem que as frutas possuem substancialmente mais açúcar que os vegetais selecionados e algumas frutas possuem consideravelmente mais frutose do que glicose, no caso desta tabela a maçã e a pêra. O damasco e a ameixa possuem consideravelmente mais glicose do que frutose.

Se você é um indivíduo que consome a típica dieta brasileira, você pode se beneficiar do aumento no consumo de frutas, caso elas sejam substituídas por grãos. Neste caso, temos um cenário completamente diferente, ocorre uma melhora na saúde e substancial perda de peso.

O consumo de frutose por meio de frutas gera um impacto metabólico no organismo completamente diferente de quando ela é consumida de forma líquida (sucos ou refrigerantes). Para haver um impacto metabólico negativo pelo organismo deve haver altos níveis de frutose em conjunto com uma absorção rápida, como no caso do suco e o refrigerante. Já a fruta possui bastante fibra, o que diminui substancialmente o tempo em que a frutose é liberada no sistema. Para mais informações sobre este conceito: veja o vídeo traduzido por nós do Dr. Lustig, endocrinologista especialista na metabolização da frutose.

Uma boa referência de sua tolerância a carboidratos e a frutose pode ser sua gordura abdominal.

A frutose é um macronutriente metabolizado pelo fígado, por meio de um processo diferente do que o da glicose, por esse motivo ela tem um baixo índice glicêmico. Apesar da frutose ter uma baixa carga glicêmica, quando a frutose entra no fígado, mesmo em quantidades baixas (a não ser quando os níveis de glicose sangüínea se encontram muito baixos, quando a frutose é convertida em glicose por meio do processo de glicólise), o fígado não consegue processá-la rápido o suficiente para ser usada como glicose. Ao invés disso, o fígado passa a produzir gordura em forma de triglicérides a partir da frutose e a  envia para corrente sanguínea como triglicérides. O alto consumo de frutose leva a maiores níveis de triglicérides e o aumento da gordura visceral (abdominal). A frutose é isocalórica mas não isometabólica, o que significa que você pode consumir a mesma quantidade de calorias de frutose e glicose, gordura ou proteína e obter resultados completamente diferentes apesar da mesma quantidade de calorias.

Diversos estudos têm demonstrado que o consumo de frutose, em relação aos outros macronutrientes, gera um ganho maior de gordura visceral, menores níveis do colesterol “bom” HDL, aumento dos níveis de triglicérides, glicose em jejum e piora nos marcadores sangüíneos em geral. O consumo excessivo de frutose, com o tempo, gera o desenvolvimento da síndrome metabólica, condição precursora do desenvolvimento de diabetes, doenças cardíacas e o câncer. Esta condição pode afetar até mesmo indivíduos aparentemente magros, o típico magro que possui excesso de gordura visceral (abdominal).

O açúcar de mesa contém aproximadamente 50% frutose e 50% glicose. O organismo metaboliza a frutose de maneira similar ao etanol (álcool) e muitos pesquisadores crêem que o fato da frutose gerar uma maior e mais rápida percepção de doçura comparada à glicose, ela desencadeia mudanças no cérebro nas áreas responsáveis pelo controle do apetite, gerando um desequilíbrio desses mecanismos.

Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Fructose

Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Fructose

 

O suco de açaí e o açaí em tigela, do jeito que é vendido no mercado, é algo completamente diferente da fruta. O próprio rótulo do produto mostra de maneira clara a diferença:

IMG_0631

Reparem, o açaí possui mais de 18 gramas de carboidratos (açúcar no caso desse produto) por 40g, o equivalente a 90 gramas de açúcar para cada 200g do produto, quantidade equivalente a média de consumo de açúcar diário de um típico americano!! Em apenas 200g de produto! O consumo considerado seguro para muitos especialistas está na casa dos 40g de açúcar por dia!

Agora vamos compará-lo com um suco industrializado tradicional:

pic-tabela-frut-uva

200ml de um suco industrializado tradicional contém aproximadamente 24 gramas de açúcar para cada 200ml, ou seja 3,75 vezes menos a quantidade de açúcar do açaí, em outras palavras  aproximadamente 26% da quantidade de açúcar do produto açaí, ou 1/4. Substancialmente menor, porém ainda muito alto considerando um consumo diário de menos de 40g.

Agora vamos comparar com a água de coco:

IMG_0639

A água de coco industrializada possui 11 gramas de açúcar para cada 200ml, ou seja 8,2 vezes menos açúcar que o produto açaí, ou 12% da quantidade de açúcar que o produto açaí. 45% da quantidade do suco industrializado.

É importante ressaltar que a água de coco natural contém de 6 a 8 gramas de açúcar para cada 200ml sendo em torno de 12 a 35% frutose e o resto glicose, uma quantidade muito menor de açúcar (carboidratos no rótulo) e menor ainda de frutose comparado com o suco industrializado e contém uma quantidade de açúcar muito mais baixa do que o produto açaí.

Acha que acabou? Ainda tem mais. O produto açaí da foto acima, como muitos outros é muito rico caloricamente. Este açaí possui em torno de 480 calorias para cada cada 200 mg de produto, sendo 109 calorias aproximadamente (23% das calorias) em forma de gordura, o que significa que junto com as 360 calorias de açúcar por 200 ml  do resto do produto, se torna uma alimento de extrema alta palatividade.

A teoria da palatividade de Stephan Guyenet, muito coerente com a literatura, suporta a idea de que certos alimentos agem na área do cérebro responsáveis pela regulação do apetite com maior intensidade do que outros alimentos. Em outras palavras, alimentos com maior palatividade tornam o individuo muito menos saciado e mais suceptivel a consumir mais alimentos ao longo do dia e tras atona problemas metabolicos.

Muitas pessoas devem estar se contorcendo na cadeira no momento, pensando: não é possível! Mas ele tem mais de 20x os níveis de determinados antioxidantes do que o vinho. Realmente, mas o fato é que metabolicamente o produto açaí é uma bomba para nosso organismo, um coquetel de frutose que supera a maioria dos produto que eu já vi no mercado. Com granola e mel por cima então, hmm nem se fala!

Hoje em dia se uma empresa quer lançar um produto inovador com grandes projeções de vendas, deve sempre haver um história muito bem bolada sobre o produto, como no caso dos grãos integrais, os quais a indústria vende a idéia de que eles tem mais fibras que o branco, mais nutrientes, parece mais bonito nas fotos, logo é mais saudável, ou por exemplo: “ele é ‘natural’ e vem da Amazônia, por isso é saudável”. É quase certo que além da história vendida, o produto terá que ser minuciosamente manipulado para gerar um grande impacto na área de recompensa de nosso cérebro relacionada ao consumo de alimentos. No caso do açaí, estes dos fatores estão inclusos, o que o torna um produto que apesar de caro, vem crescendo exponencialmente no mercado interno e externo.

Agora, voltando a pergunta inicial: açaí é saudável? Ao menos que você tenha acabado de correr  por mais de uma hora, ou feito qualquer atividade física longa e intensa, ele não deve ser consumido na forma tradicionalmente industrial. Caso contrário, se você conseguir se ater a duas ou três colheradas, o que é muito difícil e pouco prático, você provavelmente não será prejudicado, mas dificilmente será beneficiado por isso, dado a disponibilidade de alimentos com menos frutose e mais nutricionalmente densos.

Vai um açaí? Energético natural, olha o açaí! (vendedor ambulante)

 

 

Referências:

“Biochemistry”; Mary Campbell, Ph.D. and Shawn Farrell, Ph.D.; 2005

Q&A: ‘Toxic’ effects of sugar: should we be afraid of fructose? Luc Tappy

http://www.youtube.com/watch?v=dBnniua6-oM

The Fructose Epidemic, By Robert H. Lustig, MD

Fructose: Is It Bad For Our Health? A commentary prepared for a joint ILSI North America/USDA Workshop: State-of-the Science on Dietary Sweeteners Containing Fructose, March 2008.

Metabolic effects of dietary fructose. J. Hallfrisch

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>